MANOEL

Olha eu aí de novo, no Canto dos poetas e sonhadores. Depois de Festa de Família, no Sesc Av. Paulista, e de algumas incursões por este Brasil, com a peça Diálogo dos Pênis; depois de Maringá, onde trabalhei com o meu dileto amigo Fábio Moraes, e antes que comece a ensaiar Anne Frank – aguardem! – tenho a excelsa honra de dizer que participei do filme “Só 10% é mentira”, do cineasta, poeta e surfista Pedro Cezar. Um documentário emocionante sobre o mundo e a obra do grande, imenso, Manoel de Barros.

Curioso é que o filme, seguindo a própria sugestão do poeta – afinal, só 10% é mentira – mistura ficção e realidade, numa saborosa alquimia da invenção. E coisas engraçadíssimas se sucedem no plano da vida cotidiana, como passo a relatar:

No supermercado. A moça se aproxima e se apresenta. É sobrinha do poeta. Acabara de dizer à filha de Manoel, sua prima, que o pesquisador da obra do tio, aquele que aparece no filme, é seu vizinho e está sempre no Zona Sul. Diz a mim – eu, que estou carregado de sacolas, mais uma lata de cerveja na mão - que gostaria de conhecer os meus escritos sobre Manoel de Barros. Depois de quase engasgar com a cerveja, tomo o que resta da latinha e tento explicar: eu sou um simples ator que, no filme, interpreta um estudioso da obra do Manoel, não mais que isso. E ensaio uma confusa explicação a respeito de como o meu personagem cumpre, no filme, a única função de expressar algo do pensamento do diretor e roteirista com relação à poesia do Manoel.

Meio sem graça, eu, e um tanto decepcionada, ela, nos despedimos. Mas nos tornamos bons amigos e, vez em quando, topamos um com o outro lá pelas bandas da Praça S. Salvador. Secretamente, sorrimos do mico que ambos pagamos.

Mas nem tudo são sorrisos, em se tratando do filme. O meu amigo Júlio está, simplesmente, indignado. Onde já se viu – ele vocifera – contar mentiras num documentário? Você foi apresentado no filme como um conhecedor profundo da obra de Manoel de Barros!

Mas Júlio – eu respondo – o filme se chama “Só 10% é mentira”!

E assim vai.

Bem, meus caros, bem, Marisa, bem Júlio, se não sou um profundo conhecedor da obra, penso que não os decepcionarei se ousar dizer umas duas ou três coisas que andei matutando sobre a poesia do Manoel. Assim, condenso ator e personagem, de tal modo que a Marisa possa, finalmente, ler um meu escrito – o único - sobre o tio e o Júlio considerar que, afinal, o contrário de verdade não é  mentira, mas  invenção. Pelo menos em se tratando da obra de dois grandes artistas, a saber, Pedro Cezar e Manoel de Barros.

No filme, lá pelas tantas, digo alguma coisa como: “Quem se meter a querer entender a poesia do Manoel tá ferrado, porque ali só vai encontrar beleza”. É, alguma coisa assim.

Mas, como o próprio Manoel, em um dos seus poemas, chega a citar Lacan, um dos grandes pensadores da contemporaneidade, e como pensar não supõe, necessariamente, a veleidade de querer entender, rendo-me, pura e simplesmente à sabedoria do velho Bertolt Brecht, que dizia: “Pensar é um dos maiores prazeres da humanidade”.

Vamos, pois, ao prazer de matutar.

O Vinicius de Moraes tem um poema, O Dia da Criação (aquele em que diz: “Porque hoje é sábado...”), em que conclui, ao final, que talvez fosse preferível que o Senhor tivesse encerrado os seus trabalhos no quinto dia e descansado no sexto e no sétimo. E imagina, a partir daí, um planeta entregue ùnicamente aos bichos, às plantas e às águas. E livre, portanto, da   humanidade.

É interessante a sugestão do Vinicius, porque, não havendo humanidade, não poderia haver a palavra, e, não havendo a palavra, as coisas do mundo simplesmente não seriam nomeadas, não sendo nomeadas... bem... será que as coisas teriam algum tipo de existência?

Como seria esse mundo mítico, onde as coisas seriam sem serem nomeadas, onde as palavras estivessem impossibilitadas de, em algum momento, substituir e ocupar o lugar das coisas?

Bem, o fato é que, graças ao bom Deus, o homem e a mulher foram gerados e, a partir daí, as coisas puderam entrar na roda da linguagem, na roda da nossa realidade cotidiana,ou seja,  passaram a ter existência – simbólica -  e a fazer parte do nosso universo linguageiro.

Mas acontece que a linguagem nunca abarca tudo, tem sempre alguma coisa que se recusa a entrar nessa roda, nessa ordem simbólica, como se diz, alguma coisa que é impossível de ser dita, alguma coisa que as palavras não alcançam e que permanece como uma espécie de resto. É, de resto...

É o que o Manoel diz, num dos seus poemas: “Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de contemplação dos restos”. Quer dizer, a tarefa de nomear o inominável, o indizível, aquilo que é impossível de dizer.

Ao mesmo tempo salta aos olhos, na obra de Manoel, o desejo, quase a obsessão, de alcançar um estado de identidade absoluta com as coisas, com as coisas antes mesmo que tivessem um nome – quem sabe se “pré-coisas”? – como quando diz: “(...) Retirou meus limites de ser humano e me ampliou para coisa”.

Assim, é impossível não reconhecer na sua poesia a compulsão irresistível de abandonar-se, de eliminar a distância entre si e o mundo das coisas, num movimento demasiadamente humano – e nostálgico – de retorno a uma condição primeva, primitiva, primordial, condição essa que – todos nós sabemos, inclusive o Manoel – está para sempre perdida, desde que a palavra se intrometeu entre nós, seres falantes, e o mundo natural.

E é com profunda humildade que o poeta confessa:

 

                                               “Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de

                                               Uma pedra.

                                               Não tenho os predicados de uma lata.

                                               Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro –

                                               Feito um osso de gado

                                               Ou um pé de sapato jogado no beco”.

 

Para concluir, em seguida:

 

                                               “Eu não sou digno de receber no meu corpo os

                                               Orvalhos da manhã”.

 

Ainda seguindo a via aberta por Lacan, é legal lembrar uma outra frase sua: “O significante mata a coisa”. E mais esta: “O mundo das palavras cria o mundo das coisas”. Digamos, então, que a palavra mata para criar, quer dizer, para criar uma outra coisa. Porque a pedra, antes de ser chamada de pedra, tinha uma consistência de ser. A partir de que este ser ganha um nome - pedra - ele entra na rede simbólica e morre enquanto ser. Assim, quando digo “pedra”, sequer é preciso que ela esteja a vista. A palavra adquire autonomia e ganha preponderância sobre a coisa.

É curioso, no entanto – e extremamente instigante – o modo singular, inusitado, encantador, originalíssimo e genial com que Manoel trata de lidar com o velho paradoxo: não podemos prescindir da linguagem, ao mesmo tempo em que somos órfãos de tudo aquilo que está para além dela.

E como ele faz isto? Assim:

 

                                               “Há um cio vegetal na voz do artista.

                                               Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto

                                               De alcançar o murmúrio das águas nas folhas

                                               Das árvores.

                                               Não terá mais o condão de refletir sobre as

                                               coisas.

                                               Mas terá o condão de sê-las”.

 

 

“Envesgar seu idioma”, vejam só! Toda a obra de Manoel de Barros parece ser, em última análise, uma verdadeira declaração de amor às palavras!

 

                                               “(...) Só as palavras não foram castigadas com

                                               A ordem natural das coisas.

                                               As palavras continuam com os seus deslimites”.

 

 

Assim, o poeta Manoel de Barros, um artista digno desse nome, poeta maior (vivo) da língua portuguesa, continua em busca desse tempo mítico, tempo que a palavra matou, mas que só a palavra é capaz de inventar. Elas, as palavras, constituem a matéria – ou o instrumento – com que Manoel, à feição de um alquimista, procura o ouro de um paraíso que ele sabe perdido para sempre, mas que tem o imperativo ético de continuar buscando. Para isso os artistas são feitos. Ou se fazem.

Viva Manoel!

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