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XI Congresso Internacional da ABRALIC

Tessituras, Interações, Convergências

13 a 17 de julho de 2008

USP – São Paulo, Brasil

A poesia hebraica na Andaluzia muçulmana –

uma poética da ambivalência

Dr. Saul Kirschbaum1

Resumo:

Na Andaluzia muçulmana surgiu uma importante poesia hebraica laica, de celebração da vida, ao

lado de uma tradição poética litúrgica concentrada na dor da destruição do Templo, no sofrimento

do exílio. O fato de que ambas as formas eram compostas exatamente pelos mesmos poetas, ao

mesmo tempo rabinos e pensadores do judaísmo, aponta para uma ambigüidade existencial que caracterizaria

o povo judeu desde então. Diversos poetas judeus, que na juventude compuseram poemas

laicos (sem, por isso, se considerarem impedidos de compor poesia religiosa), na velhice se

“arrependiam”, anunciavam sua ruptura com um passado pouco piedoso; não obstante, continuavam

a produzir poesia laica. Nesta ambigüidade, eram ecoados pelas autoridades religiosas, que

condenavam o modo de vida dos poetas, mas ao mesmo tempo os absolviam, já que sua participação

nas festas árabes “contribuía para o bem do povo”.

Palavras-chave: poesia hebraica laica, Idade de Ouro, pós-modernidade, encruzilhada de culturas,

crises identitárias.

Introdução

A conquista da península ibérica pelos exércitos árabes, iniciada em 711 e concluída em 756

com o estabelecimento do regime muçulmano omaiada, pôs fim, para os judeus, a muitas décadas

de opressão na Espanha visigoda. Para termos uma idéia das condições em que os judeus viviam na

véspera da chegada dos árabes, basta lermos o comentário do historiador Cecil Roth:

No regime dos Visigodos, que se estabeleceu sobre as ruínas da colônia romana,

adotou-se [a princípio] a forma ariana de cristianismo. Os judeus tinham então

poucos motivos de queixa; julga-se até que estivessem em posição privilegiada.

Mas, depois da conversão [ao catolicismo], seus senhores apressaram-se a mostrar

o zelo de perseguição tão característico do neófito. Em 589, quando o rei Recaredo

adotou o catolicismo romano, a legislação clerical corrente foi imposta também na

Espanha. A posse de escravos, os casamentos mistos, a conversão ao judaísmo, foram

proibidos sob penas rigorosíssimas. Os judeus foram excluídos de posições de

confiança ou de autoridade no Estado. Soberanos seguintes mostraram maior tolerância.

Mas a partir de 616, quando o rei Sisebuto subiu ao trono, a escuridão desceu

completa. Durante quase um século, a prática aberta do judaísmo foi absolutamente

proibida. Sucessivos concílios da Igreja, realizados em Toledo, sob a presidência

do próprio rei, enunciaram minuciosas prescrições segundo as quais antigos

judeus e seus descendentes deviam ser afastados de sua fé ancestral. Suas crianças

eram-lhes arrancadas e levadas para longe, a fim de receberem educação em casas

de catolicismo ortodoxo. (ROTH, 1963, vol. 2, p. 18)

Assim, não provoca espanto o fato de que os judeus tenham saudado os invasores como seus

libertadores. Há quem diga que os judeus foram mais longe do que apenas alegrar-se com a chegada

dos árabes, que teriam mesmo colaborado ativamente com a invasão, inclusive na forma de tropas

combatentes. No mínimo, como informa Abba Eban, sabe-se que “[n]a medida em que uma cidade

depois da outra era capturada, os judeus recebiam sua guarda, desde que estivessem presentes em

1 Bolsista da CAPES no programa PRODOC junto ao Programa de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas,

DLO/FFLCH/USP. E_mail: saul@usp.br

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número suficiente. Desde o início, eles se tornaram um minoria confiável na Espanha muçulmana”

(EBAN, 1968, 144).

A aposta judaica mostrou-se acertada. O estabelecimento do califado inaugurou uma era de

tolerância e prosperidade. Os judeus que haviam sido convertidos à força ao cristianismo puderam

retornar ao judaísmo. Córdova, a capital do califado, foi transformada em um centro de alta cultura,

com uma universidade dotada de uma biblioteca contendo cerca de 400.000 volumes. O florescimento

cultural se fez acompanhar de incorporação política, com muitos judeus galgando posições

proeminentes na administração do estado. Os casos mais notórios foram o de Hasdai ibn Shaprut

(915-970), que veio a ser o principal conselheiro do califa em assuntos financeiros e diplomáticos –

graças a seus esforços em benefício da comunidade foi até mesmo possível criar a escola talmúdica

de Córdova2 -, e o de Samuel Hanaguid (993-1056), que se tornou vizir e comandante-em-chefe da

cidade-estado de Granada3. Em contato com a luxuriante civilização árabe, a poesia neo-hebraica de

inspiração litúrgica voltou a se expandir.

Podemos ter uma idéia do poderio e riqueza atingidos pela comunidade judaica de Córdova

pela narrativa de Abraham ibn Da´ud, cronista judeu do século doze. O rabino Hanoch ben Moshe,

conta Ibn Da´ud, era escoltado diariamente à corte do califa por “setecentos judeus em setecentas

carruagens, cada um deles adornado com trajes reais e usando o turbante de oficiais muçulmanos”

(apud HALKIN, 1999, pp. 9-10, tradução minha). Samuel Hanaguid, que tinha sido um estudante

destacado do rabino Hanoch ben Moshe, foi quem, para nela viver, restaurou uma velha cidadela

sob o nome árabe de hisn el-hamra, “a fortaleza vermelha”, a famosa alhambra, até hoje admirada.

Estava aberto o caminho para a “Idade de Ouro” dos judeus na península ibérica. Neste clima

de aceitação social e ascensão econômica e política, os intelectuais judeus se sentiram à vontade

para dedicarem-se também a uma intensa atividade cultural laica, que teve como paradigma a criação

poética árabe. Como observa Alter,

[o] nascimento de uma nova poesia hebraica /.../ foi um ato de assimilação competitiva.

Se os árabes de Andaluzia podiam se jactar de uma poesia refinada, elegante,

como peça-chave de sua cultura – uma poesia, além do mais, assentada não no dialeto

vernacular do árabe, mas na linguagem clássica do Corão – os judeus da Espanha

assumiram que tinham um modelo de perfeição lingüística ainda mais puro no

hebraico da Bíblia, a partir do qual poderia ser lavrada uma poesia esplêndida, que

ultrapassaria seus modelos árabes. Estavam envolvidas tanto imitação social quanto

literária (ALTER, 1991, p. xii, tradução minha).

Esta influência árabe, esta “assimilação competitiva”, se fez sentir não só nos aspectos formais,

nos modos de composição, no uso das métricas árabes, mas também nas temáticas abordadas.

Pela primeira vez, em séculos, podendo desfrutar das delícias de uma vida de abundância e liberdade,

os judeus passaram a compor poemas de celebração. É ainda Alter que comenta:

Os revestimentos físicos desse mundo afluente, hedonístico, seguidamente se refletiam

nos poemas: jardins prazeirosos com fontes murmurantes e pássaros canoros,

belos rapazes e moças servindo vinhos finos em taças de cristal, uma profusão de

vestimentas, utensílios e arquitetura ricamente ornamentados, eram ao mesmo tem-

2 “Alguns discípulos de uma célebre academia judaica foram feitos prisioneiros durante uma viagem pelo Mediterrâneo;

um deles, rabi Moshe, chegou com seu filho Hanoch a Córdova, onde seus correligionários os resgataram, contra tributo,

da escravidão. Um dia, sob humilde anonimato, ele se dirigiu à escola da comunidade, onde encontrou um rabino

ignorante explicando o Talmud. Apresentou algumas objeções que puseram o mestre, rabi Nathan, em dificuldade. Este,

mais desinteressado do que sábio, se levantou e deixou seu posto para o recém-chegado. Córdova tornou-se assim, pouco

a pouco, o centro da ciência talmúdica para todo o judaísmo, em um progresso tão rápido que eclipsou as academias

clássicas da Mesopotâmia” (CALIMANI, 1986, p. 119, tradução minha).

3 No século onze, o califado pediu ajuda, para combater os ducados cristãos do norte da Espanha, aos berberes do norte

da África, também muçulmanos. Estes derrotaram os cristãos, mas também provocaram o desmembramento do califado

em vários estados, chamados taifas, governados por emires soberanos.

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po diretamente representados nos poemas e espelhados nas imagens poéticas. A

poesia, antes seqüestrada na sinagoga, tornou-se, ao menos para a elite, um veículo

do quotidiano (ALTER, 1991, pp. xii-xiii, tradução minha).

É importante termos presente que até perto do final do primeiro milênio da era comum, a única

poesia composta em hebraico era litúrgica, e consistia de louvores a Deus ou de lamentos pelas

aflições de Israel. Agora, os poetas judeus falam da beleza da natureza, de amores eróticos, de prazer

sensual, de belos jovens (de ambos os sexos – referidos muitas vezes como faunos e gazelas)

servindo vinho, de jardins. E também de valores másculos, das emoções ligadas a altas ambições e

dos pesares humildes de doença, morte, velhice. Podemos exemplificar estas novas opções temáticas

com um pequeno poema de um dos mais importantes poetas da época, Iehudá Halevi, nascido

em Toledo antes de 1075, e morto (supõe-se) em Jerusalém, em 1141 ou depois:

EIS QUE ME DEU ...

Eis que me deu em prenda pura a uma gazela

que toda a noite para mim foi música de harpas e flautas acordadas;

ela me diz, quando eu empunho a taça cheia:

- Bebe de entre meus lábios sangue como de uvas.

É então que a lua surge como um til de ouro

escrito sobre a túnica da aurora.

(Tradução: Renata Pallotini. In GUINSBURG, 1969, p. 339)4

Não obstante muitos judeus terem se escandalizado, apesar de protestos contra o movimento

literário secular que perduraram por gerações, a nova poesia se alastrou como fogo selvagem. Continuou

produtiva depois que a Espanha foi re-cristianizada no processo da Reconquista, e também

depois da expulsão dos judeus, em 1492, se espalhando pelo Mediterrâneo.

Mas o problema que me concerne aqui é que o povo judeu está no exílio. O Templo foi destruído

pelos romanos em 70 e.c., Israel perdeu sua autonomia política e vive disperso entre os povos.

Só a vinda do Messias poderá trazer a redenção. Os versos de Jeremias, no salmo 137,

3 – Porquanto aqueles que nos levaram cativos,

nos pediam uma canção;

e os que nos destruíram,

que os alegrássemos, dizendo:

Cantai-nos um dos cânticos de Sião.

4 – Mas como entoaremos

o cântico do Senhor

em terra estranha?

5 – Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém,

esqueça-se a minha destra da sua destreza.

6 – Apegue-se-me a língua ao paladar,

se me não lembrar de ti,

se não preferir Jerusalém

à minha maior alegria.

são entendidos e aceitos por todos como uma conclamação ao luto permanente, uma proibição a

manifestações de alegria, um veto à celebração dos prazeres da vida. Esta situação é muito clara,

por exemplo, em um responsum de Hai Gaon5: “Quanto à sua questão sobre a posição legal de alguém

que, em nossa época [isto é, desde a destruição do Tempo] bebe [vinho] com acompanhamento

de música, especialmente entre não-judeus, ele é culpado e deve ser excomungado /.../” (apud

SCHEINDLIN, 1984, p. 275, tradução minha).

4 Ver também outro exemplo em “A gazelinha não-me-toques”, tradução comentada de poema de Iehudá Halevi por

Moacir Amâncio, em Cadernos de Língua e Literatura Hebraica num. 4, São Paulo: Pólo Editora, 2004.

5 Hai Gaon foi o último dos gueonim babilônios, contemporâneo de Samuel Hanaguid, morreu em 1038.

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Como dar conta da situação? Como manter o luto no coração, continuar respeitando as normas

da comunidade, e, ao mesmo tempo, viver no mundo, ou seja, participar das benesses oferecidas

por uma situação de afluência, de conforto material, de crescente aceitação por uma elite culta e

tolerante, como a elite árabe? Nos tempos atuais, tempos de fragmentação identitária, esperaríamos

que cada um fizesse sua escolha. Aqueles mais devotos optariam pelo piut, pela poesia religiosa

para recitação na sinagoga. Aqueles menos preocupados com as questões religiosas optariam pelas

letras seculares, pela poesia de conteúdo laico. Surpreendentemente, a resposta dos poetas judeus

espanhóis foi: “com um pé de cada lado”. Os poetas laicos mais importantes da época são justamente

os poetas litúrgicos mais importantes da época. Samuel Hanaguid, Shlomo ibn Gabirol, Moses

ibn Ezra, Iehudá Halevi compõem poemas laicos, eróticos, satíricos, no estilo de al-Andalus, ou

seja, utilizando as convenções poéticas árabes, e também são rabinos, pensam em Israel, compõem

cânticos de lamentação, choram a perda de Sião. Os poetas judeus, inevitavelmente, tinham que

enfrentar as contradições de viver entre duas culturas, na encruzilhada. O autor de

NO ORIENTE

Meu coração está no Oriente e eu, no extremo Ocidente –

como poderia eu provar meus alimentos e saboreá-los?

Como poderia eu cumprir meus votos e meus juramentos,

quando Sião está nas cadeias de Edom e eu, na servidão árabe?

Fácil seria a meus olhos renunciar a todo o bem de Sfarad,

tão precioso é a meus olhos contemplar as areias do Santuário desolado.

(Tradução: J. Guinsburg. In GUINSBURG, 1969, p. 144)

que tão bem ecoa o lamento de Jeremias, é exatamente o mesmo Iehudá Halevi de quem, antes,

transcrevemos o poema “Eis que me deu ...”, que celebra a noite de música e vinho desfrutada junto

a uma “gazela”. Halevi, considerado por muitos como o maior poeta judeu entre o final do período

bíblico e o século doze. A palavra de ordem é, podemos dizer, ambivalência. Assim como, séculos

mais tarde, os judeus responderiam a Napoleão que se consideravam “franceses na rua, israelitas em

casa”, a elite pensante judia de al-Andalus parece dizer que “está de luto, chora a perda de Sião, na

sinagoga, mas celebra a vida na rua (na verdade, nos suntuosos palácios dos ricos), na atmosfera

árabe do quotidiano”.

É claro que esta ambivalência, para se sustentar, supõe uma resposta adequada do establishment.

Uma negociação, mesmo que tácita. Os poetas certamente não poderiam manter “um pé de

cada lado” se de fato fossem considerados culpados e, por isso, excomungados. O responsum de

Hai Gaon, do qual citei acima só o início, deve ser lido por inteiro: “Quanto à sua questão sobre a

posição legal de alguém que, em nossa época [isto é, desde a destruição do Tempo] bebe [vinho]

com acompanhamento de música, especialmente entre não-judeus, ele é culpado e deve ser excomungado,

/.../”, continua com:

a menos que ele seja um cortesão [lit., seja admitido ante o governante], e trabalhe

para a proteção dos judeus, e esteja seguro a respeito de si mesmo, que não deslizará

para licenciosidade, e a menos que se saiba que no momento [de beber e escutar

música] ele está concentrado na destruição do Templo, e que ele está forçando seu

coração para ser triste e não esteja se divertindo, e a menos que ele escute [música]

apenas por deferência para com o rei, de modo a beneficiar Israel (SCHEINDLIN,

1984, pp. 275-6, tradução minha).

Ambivalência, pois, de ambos os lados. Contra todo o ritualismo que caracteriza o judaísmo,

que implica estabelecer contato somente com a exterioridade, uma “ortopraxis”, é necessário agora,

para legitimar a ambivalência, invadir a interioridade do judeu (poderoso e influente, freqüentador

da corte do governante árabe, poeta e intelectual) para saber em que ele está pensando enquanto

bebe e escuta música, para ter certeza de que no fundo do coração ele está triste, que ele aparenta

estar se divertindo apenas por deferência para com o governante não-judeu, e apenas como artifício

para beneficiar seu povo.

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Mas, apesar da negociação, apesar do acordo com o establishment, o poeta judeu não está em

paz consigo mesmo, uma vez consciente de sua ambivalência. Poetas compungidos, Brann os qualifica.

A culpa os devora. Diz o autor:

Os poetas hebreus se prostravam ante uma consciência literária problemática. Eles

estavam cientes de seu afastamento abrupto das normas hebraicas em um movimento

arabizante, mas, ao mesmo tempo, queriam, ansiosamente, ser identificados

como herdeiros da tradição literária do antigo Israel. Colocando isso de outra forma:

a poesia hebraica andaluza é um híbrido literário. Seu verso de vanguarda reflete

as normas adaptativas sub-culturais dos intelectuais judeus, mas essa poesia se

enraíza, através da linguagem, imaginário e associações, no texto mais tradicional,

a Bíblia hebraica (BRANN, 1987, p. 128, tradução minha).

Em meu entender, a questão talvez não seja apenas literária, como Brann dá a entender, mas,

e principalmente, existencial. A conseqüência desse estado de coisas seria que, tipicamente, os poetas,

na juventude, escreviam sobre amores, vinhos, celebração da vida6, e se “arrependiam”, se voltavam

para as questões religiosas, para o luto pela perda de Sião, quando envelheciam. O exemplo

mais contundente do fenômeno é a carreira deste Iehudá Halevi de quem mostramos acima poemas

antagônicos. Por volta de seus sessenta e cinco anos, em 1140, Halevi, num “renascimento místico”,

rompeu com os modos de vida de al-Andalus (“renunciou a todo o bem de Sfarad”, como anunciara

no poema “No Oriente”) e optou por uma vida de devoção religiosa, decidindo mudar-se para a

Palestina, onde acabou morrendo. Como poeta litúrgico, defendeu a idéia de que “o sofrimento de

Israel é uma santificação do nome de Deus”. Em sua obra maior, o Cuzarí, reconhecida como uma

defesa “não-filosófica” do judaísmo tradicional, Halevi sustenta que “Israel poderia ter apressado o

resgate submetendo-se de boa vontade ao jugo do exílio” (CARMI, 2006, p. 107, tradução minha).

Nesta mesma obra, condena expressamente a poesia laica composta pelos judeus de al-Andalus (da

qual ele mesmo é um dos expoentes):

/.../ quando alguém deseja contatar o que é sublime e espiritualmente mais elevado:

esta pessoa tende a isolar-se do contato com o sexo oposto, de gente jocosa e de regalar-

se com cantigas de amor ou chistosas, que podem afetá-la negativamente

(2003, p. 137, diálogo 2:60).

O mesmo conflito foi experimentado por seu mestre, Moisés ibn Ezra7, que, numa revisão de

sua carreira, anunciou que renunciara e abandonara a poesia, tendo resolvido devotar seus anos remanescentes

a assuntos mais valiosos8.

Porém, não obstante serem poetas “compungidos”, continuam a levar uma vida de ambivalência;

apesar dessas declarações dramáticas, continuam compondo poemas seculares. Halevi, a caminho

da Palestina, demorou-se alguns meses no Egito, onde escreveu muitos poemas de louvor a

judeus egípcios notáveis e de celebração das belezas do mundo9. Ibn Ezra, “refletindo sobre a condição

humana, corrigiu suas observações: ‘No entanto, eu nunca me abstive completamente de

compor poesia, sempre que a necessidade surgiu’” (apud BRANN, 1987, p. 126, tradução minha).

6 O que não os impedia de, ao mesmo tempo, comporem poesia religiosa; como assinalamos acima, os principais poetas

seculares são também os principais poetas litúrgicos.

7 Ross Brann inclui, entre os poetas “arrependidos”, Shem Tov ibn Falaquera (1224-1290) e Todros Abulafia (1247-

1295) (1987, p. 140, nota 21, tradução minha).

8 “Durante a juventude e o início da idade adulta, eu estimei a poesia como artesanato que armazena glória, e a considerei

como um meio de impressionar os outros. [Anos] depois, renunciei a ela e a abandonei – como uma gazela deserta

sua sombra – por ter resolvido devotar meus anos remanescentes a assuntos mais valiosos” (apud BRANN, 1987, p.

126, tradução minha).

9 “Entre setembro de 1140, quando desembarcou [no Egito], e maio de 1141, quando embarcou para a Palestina, o poeta

festejou judeus egípcios notáveis com pelo menos cinqüenta e um poemas e quatro cartas de ocasião em prosa hebraica

rimada. /.../ De fato, os poemas de Halevi para os judeus egípcios notáveis são conspícuos por seus panegíricos mundanos

e sua celebração das belezas deste mundo.” (BRANN, 1987, p. 125, tradução minha).

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O fato de, mesmo depois de condenarem sua obra poética da juventude, os poetas continuarem

a compor o mesmo tipo de poesia (ainda que, como o fez Iehudá Halevi, mudando a forma,

abandonando a métrica árabe-andalusa e voltando à escrita silábica hebraica mais antiga dos poemas

religiosos), recoloca o problema. O que é, afinal, esse “arrependimento”, essa “compunção”?

No mesmo ensaio que venho citando, Brann apresenta a questão de forma mais ampla:

Muitos poetas hebreus e árabes, andaluzes e orientais, desenvolveram escrúpulos

‘revisionistas’ em relação a versos que haviam composto quando jovens, sugerindo

uma tipologia do ‘poeta compungido’ – uma tradição histórico-literária de como

uns poucos poetas se comportaram e como muitos poetas gostariam de ser percebidos

(BRANN, 1987, p. 126, tradução minha).

De fato, muitos poetas árabes, ao envelhecerem, renunciaram à poesia profana e frívola, com

declarações públicas e gestos expressivos. Entre estes, Brann relaciona Abu Amr ibn al-Ala (século

8), Khalaf al-Ahmar (século 8), Abul Atahiya (século 9), Ibn Abd Rabbihi (século 10, al-Andalus),

Ali ibn Hazm (século 11, al-Andalus) e outros. Porém, Brann observa que

para poetas judeus, que estudavam assiduamente seus correspondentes árabes, a

tradição literária sugeria um modelo para ‘a vida do poeta’. Em uma poesia governada

por convenções, tipologias e ideais literários eram inegavelmente importantes.

Mas raramente, se alguma vez, os poetas viveram vidas tão nitidamente estilizadas

quanto seus versos (BRANN, 1987, p. 127, tradução minha).

Conclusão

Muito se tem escrito, nestes tempos de pós-modernidade, sobre crises identitárias, sobre viver

na encruzilhada de culturas, sobre desterritorialização cultural. Talvez a longa experiência dos judeus

com o exílio, com a situação de imigrantes desenraizados, sempre estrangeiros, tenha antecipado

estes fenômenos. Podemos formular uma nova hipótese, para deixar a questão em aberto: Será

que o “arrependimento” era apenas mais uma convenção literária assimilada da cultura árabe? Será

que a compunção expressada pelos poetas judeus era somente mais um aspecto da “assimilação

competitiva”, de que Alter fala? Outro aspecto disto que se poderia chamar uma “poética da ambivalência”,

uma estratégia de sobrevivência?

Referências bibliográficas:

A BÍBLIA – Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1965.

ALTER, Robert – “Foreword” (pp. ix-xvi) in PAGIS, Dan – Hebrew poetry of the Middle Ages and

the Renaissance. Berkeley - Los Angeles: University of California Press, 1991.

BRANN, Ross – “Judah Halevi: The Compunctious Poet” (pp.123-143) in ProofTexts – A Journal

of Jewish Literary History. Vol. 7 No. 2, New York: The Johns Hopkins University Press, may

1987.

CALIMANI, Riccardo – L´errance juive: la dispersion, l´éxil, la survie. Trad. Maurice Darmon.

Paris, New York, Amsterdam: Diderot editeur, Arts et Sciences, 1996.

CARMI, T. – (ed.) The Penguin Book of Hebrew verse. London: Penguin Books, 2006.

COLE, Peter - The Dream of the Poem: Hebrew Poetry from Muslim and Christian Spain, 950-

1492. Princeton: Princeton University Press, 2007.

EBAN, Abba – My People: The Story of the Jews. New York: Behrman House, 1968.

GUINSBURG, Jacó – (org.) Quatro mil anos de poesia. São Paulo: Perspectiva, 1969.

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USP – São Paulo, Brasil

HALEVI, Iehudá – O Cuzarí. (Trad. Paulo Rogério Rosenbaum) São Paulo: Editora e Livraria Sêfer

Ltda., 2003.

HALKIN, Hillel – Grand Things to write a poem on: a verse autobiography of Shmuel Hanagid.

Jerusalem: Gefen Publishing House, 1999.

ROTH, Cecil – Pequena história do povo judeu (3 vols.) Trad. Emanuele Corinaldi. São

Paulo: Fundação Fritz Pinkuss, 1963.

SCHEINDLIN, Raymond P. – “A Miniature Anthology of Medieval Hebrew Wine Songs” (pp.

269-300) in ProofTexts – A Journal of Jewish Literary History. Vol. 4 No. 3, New York: The Johns

Hopkins University Press, september 1984.

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Um Seder humanista em 2011

Queridos

Uma comunidade precisa de momentos de encontro presencial.

Sempre me deparei com o desafio de organizar Seder em cima da hora.
Algumas vezes deu certo, e na maior parte delas já era tarde demais.

Como já não está tão longe, que tal começarmos a levantar as mãos para ver quem está interessado, e começarmos então a organizar?

Até quem mora fora do Brasil, como o Jayme Fuchs Bar, poderia se programar com antecedência, se tivermos iniciado os preparativos.

Vejam que não estamos sozinhos: há muito material, temos já centenas de pessoas aqui, e dá para fazer Seders em pelo menos 3 ou 4 cidades, para onde os que estão em regiões próximas poderão ir.

E sugiro que tenhamos também, além da confraternização que já é, como diz o Nilton Bonder, "farguinign" (basta por si só), um objetivo: nos organizarmos para uma campanha de hazbará judaico-humanista, nas escolas, clubes, imprensa etc.

Um abraço a todos

Sérgio



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Emmanuel Lévinas: o Judaísmo do Outro Homem
Por Denise Wasserman


Paulo Blank na ARI

No último dia 28 de outubro, o psicanalista Paulo Blank fez uma palestra no Centro de História e Cultura Judaica da ARI – CHCJ sobre Emannuel Lévinas, importante filósofo judeu do século XX.
Com poucos livros traduzidos no Brasil, Lévinas, de origem lituana, ficou mundialmente conhecido como filósofo francês por ter vivido a maior parte de sua vida neste país. Foi o responsável pela introdução da fenomenologia na França, como professor da Sorbonne.
Pensador de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos, propõe uma “ética da responsabilidade anterior á liberdade, do outro antes do eu”.
Conversamos com Paulo Blank para conhecer melhor o pensamento deste filósofo. Vamos lá?

.Quem foi Emmanuel Lévinas?
-Um filósofo que nasceu em 1926 na cidade de Kaunas perto de Vilna onde havia uma grande concentração de intelectuais judeus, religiosos ou não, e por isso era conhecida como a “Jerusalém da Lituânia”. Uma característica dos judeus religiosos da Lituânia é que tinham uma posição antagônica ao Chassidismo e a Cabalá, por verem neles uma grande possibilidade de idolatria.

.E isto poderia levá-los ao afastamento dos princípios judaicos?
- De certa maneira sim, embora nos pareça estranha esta ideia. A preocupação com o Hassidismo veio do abandono do estudo do Talmud, da importância dada ao êxtase, à comunhão com Deus, à adoração de rabinos como se estes fossem santos e milagreiros fazendo surgir uma espiritualidade cheia de magias e parecida com o espiritismo, fato que se tornou bem real e presente hoje em dia aqui mesmo no Rio de Janeiro.

.Emmanuel Lévinas era religioso?
-Na infância provavelmente não. Ele foi criado em uma ambiente não religioso, porém por uma família culta. Seu pai era dono de uma livraria, por este motivo, Lévinas logo teve contato com os clássicos da literatura russa, como Dostoiévski, por exemplo, muito citado em suas obras. Mais tarde tornou-se judeu tradicionalista, eu o chamaria de judeu shomer shabat seguidor da tradição sem ser um religioso radical, o judaísmo comporta estas diferenças...

.Apesar de nascido na Lituânia, ele é considerado um filósofo francês. Como se deu esta trajetória?
-Considerá-lo filósofo francês é uma maneira de descaracterizar o pensamento judaico que fundamenta toda a sua obra. Em 1927, Lévinas foi para Estrasburgo onde cursou a faculdade e se formou em Filosofia. Foi então para Friburgo (Alemanha), conheceu a Fenomenologia, tornando-se aluno de Edmund Husserl e Martin Heidegger, de quem passou a divergir ao longo de toda a sua obra.Como sabemos, Heiddeguer acabou ingressando no partido nazista e Lévinas jamais o perdoou, embora o considerasse o maior pensador desde Platão. Naquela época ele conviveu com o início do hitlerismo.

.O que resultou dessa descoberta?
- Em 1933, com 27 anos, ele publicou um curto trabalho intitulado “Reflexões sobre a filosofia do Hitlerismo”, onde ele percebe o hitlerismo como uma filosofia que negava todos os princípios da civilização europeia. Na medida em que as pessoas são definidas pelo sangue,não existe mais escolha.
Lévinas denunciou que isso seria o fim do homem europeu liberal,fim da democracia,fim de toda a cultura européia, inclusive a cristã. Uma de suas acusações é que 2000 anos de cultura cristã ocidental não foram capazes de proteger os judeus,ou seja,plantar e sustentar uma civilização onde a diferença fosse aceita como parte da vida humana. Nesta época,já de volta à França ele publica seus primeiros textos exclusivamente judaicos.

.Ele estava na França quando esta foi ocupada pelos nazistas?
-Ele serviu no exército francês, sendo prisioneiro numa campo de concentração de oficiais franceses . Exilado por cinco anos, não esqueceu o ódio do homem contra o outro homem deixada pela violência nazista. Em uma curta reflexão publicada no pós guerra ele conta como um cachorrino que ficava na porta do Laguer, quando saia para o trabalho forçado,recohecia nele uma essência humana ao saudá-lo toda manhã. Os habitantes da cidade vizinha nem reparavam na passagem pelas ruas daquela pessoas. Não será à toa que ele se transformou no pensador que trouxe de volta á filosofia uma questão que sempre foi paralela: a questão da ética como centro da vida humana.

. Ele teve influência de algum filósofo judeu?
- Lévinas teve influência de um grande filósofo judeu, Franz Rosenzweig, que publicou “ A Estrela da Redenção”, uma obra prima, onde o judaísmo se transforma em um método para pensar o mundo, deixando de ser somente objeto de estudo.Tal qual acontece com Lévinas a obra de Rosentzweig é mais conhecida fora do mundo judeu do que dentro dele.

.O que você destacaria entre os seus principais pensamentos?
- A maneira como ele trouxe o saber de Israel para o centro de seu pensamento e, de tal forma, que hoje ele é estudado profundamente pela igreja e nada pela sinagoga. Do pensamento de Israel ele capta a presença do outro como centro do mundo dos homens.O conceito de um outro diferente de mim é invenção da Torah. De como ele pode trazer o talmud como sabedoria contemporânea, fazendo com que os nossos mestres deixassem de ser privilégio das sinagogas e nos oferecer novos caminhos de se perceber judeu independente de sermos religiosos ou não.Uma intelectual israelense iimportante disse dele que ele é o único capaz de dar sentido a um judaísmo
em Israel.

.Como Lévinas
trata o Humanismo e a Ética?
- Chamei a minha conferência no CHCJ de “O Judaísmo do Outro Homem”, uma homenagem ao seu livro “O Humanismo do outro homem”. A emergência ética do nosso tempo abandona o eu como centro do mundo e faz do outro a sua preocupação permanente, apesar de ainda iludido com um poder que não tem. O importante é que Lévinas não é um filósofo das boas intenções e da pureza humana. A profunda ligação com o pensamento de Israel não lhe permitiria tal ingenuidade. Na Torah, a ideia da criação realizada por um Deus que se ausenta e nos deixa no comando já é uma postura ética. Uma ética que me faz responsável pelo destino do mundo mesmo que eu não queira. Fato que conhecemos muito bem do episódio de Caim e Abel. Quando Caim responde a Deus, “sou por acaso o guardião do meu irmão?”, ele já admitia, mesmo que negando, que somos guardiões responsáveis pelo outro que está sempre antes de mim e me perturba em sua existência me chamando para fora do meu eu. Esta é a fonte ética do filósofo judeu Emanuel Lévinas.
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MANOEL








Olha eu aí de novo, depois de postar este texto no Canto dos poetas e sonhadores. Depois de Festa de Família, no Sesc Av. Paulista, e de algumas incursões por este Brasil, com a peça Diálogo dos
Pênis; depois de Maringá, onde trabalhei com o meu dileto amigo Fábio
Moraes, e antes que comece a ensaiar Anne Frank – aguardem! – tenho a
excelsa honra de dizer que participei do filme “Só 10% é mentira”, do
cineasta, poeta e surfista Pedro Cezar. Um documentário emocionante
sobre o mundo e a obra do grande, imenso, Manoel de Barros.

Curioso é que o filme, seguindo a própria sugestão do poeta – afinal, só 10% é mentira – mistura ficção e realidade, numa saborosa alquimia da
invenção. E coisas engraçadíssimas se sucedem no plano da vida
cotidiana, como passo a relatar:

No supermercado. A moça se aproxima e se apresenta. É sobrinha do poeta. Acabara de dizer à filha de Manoel, sua prima, que o pesquisador da obra
do tio, aquele que aparece no filme, é seu vizinho e está sempre no
Zona Sul. Diz a mim – eu, que estou carregado de sacolas, mais uma lata
de cerveja na mão - que gostaria de conhecer os meus escritos sobre
Manoel de Barros. Depois de quase engasgar com a cerveja, tomo o que
resta da latinha e tento explicar: eu sou um simples ator que, no filme,
interpreta um estudioso da obra do Manoel, não mais que isso. E ensaio
uma confusa explicação a respeito de como o meu personagem cumpre, no
filme, a única função de expressar algo do pensamento do diretor e
roteirista com relação à poesia do Manoel.

Meio sem graça, eu, e um tanto decepcionada, ela, nos despedimos. Mas nos tornamos bons amigos e, vez em quando, topamos um com o outro lá pelas
bandas da Praça S. Salvador. Secretamente, sorrimos do mico que ambos
pagamos.

Mas nem tudo são sorrisos, em se tratando do filme. O meu amigo Júlio está, simplesmente, indignado. Onde já se viu – ele vocifera – contar
mentiras num documentário? Você foi apresentado no filme como um
conhecedor profundo da obra de Manoel de Barros!

Mas Júlio – eu respondo – o filme se chama “Só 10% é mentira”!

E assim vai.

Bem, meus caros, bem, Marisa, bem Júlio, se não sou um profundo conhecedor da obra, penso que não os decepcionarei se ousar dizer umas duas ou três
coisas que andei matutando sobre a poesia do Manoel. Assim, condenso
ator e personagem, de tal modo que a Marisa possa, finalmente, ler um
meu escrito – o único - sobre o tio e o Júlio considerar que, afinal, o
contrário de verdade não é mentira, mas invenção. Pelo menos em se tratando da obra de dois grandes artistas, a saber, Pedro Cezar e Manoel de Barros.

No filme, lá pelas tantas, digo alguma coisa como: “Quem se meter a querer entender a poesia do Manoel tá ferrado, porque ali só vai encontrar
beleza”. É, alguma coisa assim.

Mas, como o próprio Manoel, em um dos seus poemas, chega a citar Lacan, um dos grandes pensadores da contemporaneidade, e como pensar não supõe,
necessariamente, a veleidade de querer entender, rendo-me, pura e
simplesmente à sabedoria do velho Bertolt Brecht, que dizia: “Pensar é
um dos maiores prazeres da humanidade”.

Vamos, pois, ao prazer de matutar.

O Vinicius de Moraes tem um poema, O Dia da Criação (aquele em que diz: “Porque hoje é sábado...”), em que conclui, ao final, que talvez fosse
preferível que o Senhor tivesse encerrado os seus trabalhos no quinto
dia e descansado no sexto e no sétimo. E imagina, a partir daí, um
planeta entregue ùnicamente aos bichos, às plantas e às águas. E livre,
portanto, da humanidade.

É interessante a sugestão do Vinicius, porque, não havendo humanidade, não poderia haver a palavra, e, não havendo a palavra, as coisas do
mundo simplesmente não seriam nomeadas, não sendo nomeadas... bem...
será que as coisas teriam algum tipo de existência?

Como seria esse mundo mítico, onde as coisas seriam sem serem nomeadas, onde as palavras estivessem impossibilitadas de, em algum momento,
substituir e ocupar o lugar das coisas?

Bem, o fato é que, graças ao bom Deus, o homem e a mulher foram gerados e, a partir daí, as coisas puderam entrar na roda da linguagem, na roda da
nossa realidade cotidiana,ou seja, passaram a ter existência – simbólica - e a fazer parte do nosso universo linguageiro.

Mas acontece que a linguagem nunca abarca tudo, tem sempre alguma coisa que se recusa a entrar nessa roda, nessa ordem simbólica, como se diz,
alguma coisa que é impossível de ser dita, alguma coisa que as palavras
não alcançam e que permanece como uma espécie de resto. É, de resto...

É o que o Manoel diz, num dos seus poemas: “Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de contemplação dos restos”. Quer dizer, a tarefa de
nomear o inominável, o indizível, aquilo que é impossível de dizer.

Ao mesmo tempo salta aos olhos, na obra de Manoel, o desejo, quase a obsessão, de alcançar um estado de identidade absoluta com as coisas,
com as coisas antes mesmo que tivessem um nome – quem sabe se
“pré-coisas”? – como quando diz: “(...) Retirou meus limites de ser
humano e me ampliou para coisa”.

Assim, é impossível não reconhecer na sua poesia a compulsão irresistível de abandonar-se, de eliminar a distância entre si e o mundo das coisas, num
movimento demasiadamente humano – e nostálgico – de retorno a uma
condição primeva, primitiva, primordial, condição essa que – todos nós
sabemos, inclusive o Manoel – está para sempre perdida, desde que a
palavra se intrometeu entre nós, seres falantes, e o mundo natural.

E é com profunda humildade que o poeta confessa:

“Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de

Uma pedra.

Não tenho os predicados de uma lata.

Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro –

Feito um osso de gado

Ou um pé de sapato jogado no beco”.

Para concluir, em seguida:

“Eu não sou digno de receber no meu corpo os

Orvalhos da manhã”.

Ainda seguindo a via aberta por Lacan, é legal lembrar uma outra frase sua: “O significante mata a coisa”. E mais esta: “O mundo das palavras cria o
mundo das coisas”. Digamos, então, que a palavra mata para criar, quer
dizer, para criar uma outra coisa. Porque a pedra, antes de ser chamada
de pedra, tinha uma consistência de ser. A partir de que este ser ganha
um nome - pedra - ele entra na rede simbólica e morre enquanto ser.
Assim, quando digo “pedra”, sequer é preciso que ela esteja a vista. A
palavra adquire autonomia e ganha preponderância sobre a coisa.

É curioso, no entanto – e extremamente instigante – o modo singular, inusitado, encantador, originalíssimo e genial com que Manoel trata de
lidar com o velho paradoxo: não podemos prescindir da linguagem, ao
mesmo tempo em que somos órfãos de tudo aquilo que está para além dela.

E como ele faz isto? Assim:

“Há um cio vegetal na voz do artista.

Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto

De alcançar o murmúrio das águas nas folhas

Das árvores.

Não terá mais o condão de refletir sobre as

coisas.

Mas terá o condão de sê-las”.

“Envesgar seu idioma”, vejam só! Toda a obra de Manoel de Barros parece ser, em última análise, uma verdadeira declaração de amor às palavras!

“(...) Só as palavras não foram castigadas com

A ordem natural das coisas.

As palavras continuam com os seus deslimites”.

Assim, o poeta Manoel de Barros, um artista digno desse nome, poeta maior (vivo) da língua portuguesa*, continua em busca desse tempo mítico, tempo
que a palavra matou, mas que só a palavra é capaz de inventar. Elas, as
palavras, constituem a matéria – ou o instrumento – com que Manoel, à
feição de um alquimista, procura o ouro de um paraíso que ele sabe
perdido para sempre, mas que tem o imperativo ético de continuar
buscando. Para isso os artistas são feitos. Ou se fazem.

Viva Manoel!

* Mas não sejamos ingratos. Ferreira Gullar também merece esse título!

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As muitas camadas da realidade - Marcelo Gleiser

domingo, 7 de novembro de 2010

As muitas camadas da realidade

Marcelo Gleiser


Podemos imaginar que a descrição científica da natureza é um bolo, com fatias de sabor variado


DURANTE SÉCULOS, cientistas sonharam em obter uma descrição completa do mundo, tentando fazer da ciência um símbolo maior do brilhantismo humano. Não seria fantástico se fôssemos capazes de prever o futuro em detalhe? A ciência como oráculo... muito irônico.

Essa seria a opressora realidade do cosmorrelógio, no qual leis estritamente determinísticas descreveriam todos os mecanismos da natureza. Esse sonho não passava de ilusão, e o projeto falhou.

Primeiro porque essa meta reducionista, para a qual tudo na natureza pode ser descrito a partir do comportamento das menores entidades de matéria, depende do acúmulo de muita informação (como as posições e velocidades de todas as partículas que compõem o Cosmo).

Mesmo os seus defensores mais ferrenhos, como o francês Laplace e outros, sabiam que, na prática, nunca daria certo. Medidas tomam tempo. E, quando você termina de medir algo aqui, o que está acolá já mudou de lugar! Mas, mesmo assim, acreditava-se num conjunto de leis que poderia ser usado para construir a realidade física do mais elementar ao mais complexo, a partir das entidades fundamentais da matéria e de suas interações.

Além disso, a física quântica, que descreve átomos, proíbe o conhecimento da posição e da velocidade de uma partícula com precisão arbitrária, impondo um limite absoluto ao que podemos conhecer.

Hoje, imagino (e espero) que poucos físicos acreditem que o projeto reducionista possa funcionar começando das partículas elementares e indo às moléculas, aos furacões ou à explicação de como os neurônios podem criar nosso senso de identidade.

Deixar de lado esta meta reducionista cria oportunidades únicas. Como escreveu o prêmio Nobel Philip Anderson, em 1972: "A cada nível de complexidade aparecem novas propriedades. Cada estágio requer leis e conceitos novos".

Podemos imaginar nossa descrição científica da natureza como um bolo de muitas camadas, cada qual com o seu sabor, ingredientes e feita segundo instruções diferentes. O bolo pode ser um só, mas não é possível cozinhá-lo começando com prótons e elétrons. (Da mesma maneira, uma sinfonia é muito mais do que um agrupamento de notas.)

Será que existem camadas-limite, indo da menor à maior? Ou será que a realidade é um "bolo de Babel", sem limites? Se considerarmos o que sabemos hoje, podemos dizer que existe uma distância mínima, onde o conceito de espaço deixa de fazer sentido: é o chamado "comprimento de Planck", igual a 1,6 x 10-35 metro (um próton tem aproximadamente 10-15 metro).

Em direção ao cósmico, a coisa é mais incerta. Podemos dizer que a porção observável do Universo, isto é, o volume de espaço onde podemos coletar informação usando formas diversas de radiação (como luz, ultravioleta e infravermelho), é de 46 bilhões de anos-luz.

Se o Universo continua além dessa fronteira- e não há razão para achar que não continue- não podemos sabê-lo. E se não podemos ver o que está além, esta é, de fato, a camada-limite do "muito grande". Portanto, nosso bolo da realidade não se estende ao infinitamente pequeno ou grande. Ao menos, essa é a receita atual.
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Parashat “Toldot - Autor: Rabino Elisha Wolfin

Parashat “Toldot”
Autor: Rabino Elisha Wolfin*

Interpretación y comentario
“Y estas son las generaciones”: dos hombres, dos pueblos y todo el mundo.
Mellizos. dos pueblos agitándose en un mismo útero y sólo Dios tiene la solución. La respuesta de Dios a la madre preocupada fue: “Dentro de tu vientre se esconden infinitas opciones. Todo el mundo: Iaacov y Esav. Uno pelirrojo, cazador, hombre de campo, amado de su padre. El segundo, indeciso, morador de tiendas, niño de su madre, que se ayudó del talón de su hermano más fuerte para salir afuera, tanto del útero, como de la tienda”.
De la misma manera que Iaacov y Esav se agitaron en el útero de su madre, también el mundo fue creado dentro del caos para pasar un proceso cuyo principio es el esclarecimiento, la separación y la distinción. Todo existía en una gran mezcla unificada. Dios sólo hizo orden y creó las dicotomías conocidas. Al orden llamó “bueno”; y al mundo ordenado llamó “muy bueno”. Solamente sobre el ser humano no dijo “bueno”, porque el ser humano fue creado a Su imagen y puede amenazar al orden Divino.
Pero, ¿qué busca el ser humano? ¿Por qué se empecina en atravesar los límites, separarse de lo “bueno”? ¿Cuál es la fuente de su codicia de fuerza y poder?
¡El ser humano busca a su Dios! Quiere volver al “Uno” (“Adonai, nuestro Dios, es Uno”), salir de su soledad y volver a casa. Desde que fue creado y depositado en el Jardín del Edén, y desde que fue expulsado y fueron cerrados sus portones delante de él, busca el camino de regreso y no lo encuentra. Quedó con el anhelo, la frustración y la codicia. El ser humano tiene razón en su anhelo de volver al “Uno”. En las profundidades de su alma, él recuerda que en el mundo de Dios no hay separaciones dolorosas, límites, cielo y tierra, macho y hembra, Iaacov y Esav, engaño y peligro, sólo unidad: “¡Adonai, nuestro Dios, es Uno!”
Dijeron nuestros Sabios: “La Torá habló en el lenguaje de los seres humanos”. La Torá enseña y crea para nosotros un camino en un mundo donde no hay camino. Ya en la salida del gran útero, la olla egipcia, Dios seca para sus hijos un sendero de escape definido, en un mar infinito. Cincuenta días después, Él les da el libro guía para la caminata por el gran desierto, donde tampoco hay camino ni sendero. En su larga travesía en el desierto, los hijos de Israel aprenden que Dios, el gran Educador, Ama el orden y Se enoja cuando el ser humano mezcla su mundo. La primera lección que aprende el ser humano es que toda cosa tiene que ser ella misma y no otra cosa. La mezcla de lana y lino y de híbridos, está prohibida; la mujer tiene prohibido vestir ropa de hombre y viceversa; está prohibido cocinar el cabrito en la leche de su madre. Los límites y las definiciones crean el “yo” y el “tú”, crean identidad. Pero también crean soledad y dolor, guerra y sufrimiento.
Iaacov crecerá y abandonará la tienda de su madre, que lo defendió todos estos años, y también sus descendientes serán expulsados sin compasión de la tienda de su Padre Celestial, en un acto traumático de crecimiento. Cuando fue destruido el primer Gran Templo de Jerusalén, la profecía Divina paternal acabó. Y cuando fue destruido el segundo Gran Templo de Jerusalén, también acabó “la voz celestial”, el último vestigio de la orientación paternal directa.
No hay más Padre Celestial que enseña el bien y el mal. Y justamente entonces, ante la ausencia de la verdad Divina celestial determinada, crearon los Sabios el lindo y complicado mecanismo para descubrir la Voluntad Divina: sobre la base de las piedras fundamentales que recibieron del Padre Celestial (la Torá), comenzaron a hablar, no con Él, ¡sino uno con el otro! Nacieron la conversación, el análisis, el estudio compartido, la discusión, y mediante ellos surgió una gama de rostros del Creador: “Éstas y éstas son palabras del Dios Vivo”. Así como de profundo es este dicho ¡así es la fuerza de la revolución que crearon nuestros Sabios!
El orden es importante porque -como en una espiral- nosotros volvemos a él cada vez que nos alejamos demasiado de nosotros mismos. Él nos ayuda a conocer las infinitas partes sueltas que conforman nuestra existencia. Él nos ayudó a crear los límites, con cuya ayuda podremos contener toda la complejidad infinita de nuestro mundo, sin caer en el caos. Lo que empezó con el caos, con mellizos que se agitaron en el vientre de su madre, salió al mundo para pasar un largo y doloroso proceso de composición y definición: quién soy yo, quién eres tú, dónde empiezo yo y dónde acabas tú: un camino de competencia y engaño, expulsión, exilio y noches de soledad y miedo. Y entonces el joven se convirtió en Israel, en un hombre maduro que se conoce a sí mismo, que está en paz consigo mismo, que no quiere ser otra persona y que no quiere ser Dios. Él está dispuesto a encontrar al otro y al diferente de sí mismo, su compañero del vientre unificado, cara a cara.
Sobre el lecho de sufrimiento, Iaacov va a escuchar la voz que quiso escuchar durante toda su vida, y por causa del miedo, la separación y la competencia, no fue capaz de oirla: “Shemá Israel. Escucha Israel, Adonai nuestro Dios, es Uno”. De la unidad viniste, y a la unidad volverás.
*Comunidad “Veahavta”, Zijrón Iaacov.

Editado por el Instituto Schechter de Estudios Judaicos, la Asamblea Rabínica de Israel, el Movimiento Conservador y la Unión Mundial de Sinagogas Conservadoras.
Traducción: rabina Sandra Kochmann

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Technion – Instituto Tecnológico de Israel na vanguarda da inovação

Albert Einstein, um dos maiores incentivadores do projeto de fundação da instituição e seu primeiro presidente, disse, certa vez: “Israel somente poderá vencer a luta pela sobrevivência se investir no desenvolvimento de tecnologia avançada”. Suas palavras não poderiam ser mais verdadeiras – Israel é, hoje, o responsável por grande parte da inovação tecnológica mundial das últimas décadas.

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A pedra fundamental do Technion – Instituto Tecnológico de Israel foi lançada em 1924, em Haifa, um quarto de século antes da criação do Estado de Israel. Foi a primeira instituição acadêmica de nível superior a ser criada na então Palestina sob mandato britânico.

Com ênfase especial para a área de ciências exatas, o Instituto tem sido responsável desde então pela formação de grande parte dos engenheiros, físicos, químicos, arquitetos e planejadores urbanos de Israel. Tornou-se, também, uma referência na área biológica, e um dos grandes centros israelenses de medicina.

O Technion tem aparecido em destaque em vários rankings internacionais, nas últimas décadas, sendo considerado considerado uma das melhores universidades em nível global. Sua Faculdade de Engenharia Elétrica foi classificada entre as 15 melhores do mundo e seu corpo docente das áreas de tecnologia, ciências da computação e engenharia qualificaram-se entre os 40 melhores mundialmente. Em 2008, a empresa QS Quacquarelli Symonds, especializada em educação, publicou o Ranking Internacional das Top 100 Faculdades de Engenharia. Neste ranking, o Technion se classificou em 29º lugar, antes da famosa École Polytechnique francesa, que ficou em 31º. Já o Times Higher Education Magazine classificou o Technion como o 25o no ranking das 50 principais universidades de tecnologia em 2007. Foi incluído, também, em 12º lugar, em uma lista das instituições mais citadas da área de ciências da computação, elaborada pelo Thomson Scientific-indexed Computer Science Journal. A instituição israelense apareceu logo atrás da AT&T, IBM e universidades como o MIT, de Massachusetts.

Consagrado internacionalmente pela qualidade dos docentes, desempenho acadêmico dos alunos e resultados de suas pesquisas aplicadas à indústria, o Technion foi eleito, no ano passado, “a melhor universidade do país” pelos estudantes israelenses.

O segredo de tanta excelência reside no constante investimento e aprimoramento científico do Instituto e em seu quadro de acadêmicos, que inclui entre outros os dois Prêmios Nobel de Química de 2004, Aaron Ciechanover e Avram Hershko. Ao lado do norte-americano Irwin Rose, os dois cientistas israelenses foram agraciados por descobertas sobre o impacto da molécula “ubiquitina” no funcionamento das proteínas. Suas pesquisas podem ajudar no tratamento de doenças como a leucemia e a fibrose cística, entre outras.

Os primeiros passos

O Technion foi concebido no início da década de 1900 pela fundação judaico-alemã, Ezra, como uma faculdade de engenharia e ciências e a única instituição de ensino superior na então Palestina, à época, parte do Império Otomano. Sua pedra fundamental foi lançada em 1912, em Hadar Hacarmel, mas as aulas apenas começaram a ser ministradas 12 anos mais tarde. Após muitas deliberações, decidiu-se que seriam ministradas em hebraico e não em alemão, apesar deste ser o idioma da maioria dos professores. Quando abriu suas portas, em 1924, o Technion oferecia apenas dois cursos – Engenharia Civil e Arquitetura, e contava somente com 16 alunos. O antigo edifício histórico onde foram ministradas as primeiras aulas é, hoje, um museu experimental de ciências, o Museu Nacional de Ciências, Tecnologia e do Espaço.

Na década de 1930, com o recrudescimento do anti-semitismo e a subida de Hitler ao poder, o Instituto recebeu um grande número de estudantes e professores vindos da Alemanha, Áustria e de outros centros da Europa. Na época, o Technion passava por grandes dificuldades financeiras e, para assegurar sua sobrevivência, os professores decidiram temporariamente trabalhar sem remuneração. Em meados da década de 1930, o Instituto volta a crescer e o número de alunos chega a 400, sendo criados novos cursos.

Nos anos que precedem a Independência de Israel, o Technion torna-se um dos centros do movimento underground judaico e grande fonte de soluções tecnológicas de defesa que eram cruciais para a luta pelo independência, pois a Haganá não possuía um arsenal de armas convencionais suficiente para enfrentar os exércitos árabes. Em 1948, os 680 alunos do Technion e o corpo docente rejubilam-se com a criação do Estado de Israel. O Instituto Tecnológico de Israel torna-se a casa de força por trás do Estado em esenvolvimento. Atendiam com presteza e ingeniosidade as novas demandas, lançando uma variedade de projetos que iam desde eletricidade a redes de telefonia, de indústrias de fundição à rápida produção de moradias para atender às necessidades das ondas imigratórias.

Em 1951, o número de alunos já chegara a 1.000 e o campus da universidade, em Haifa, se tornara pequeno. David Ben Gurion, na época Primeiro Ministro, destina ao novo campus da universidade 300 acres no Monte Carmel, e em 1953, o Instituto iniciou sua transferência para a Technion City, no Monte Carmel.

Suas portas abriram-se a centenas de universitários de países em desenvolvimento da África e da Ásia e seu corpo docente começa a prestar assistência tecnológica a vários países, em todo o mundo. Além disso, a maciça imigração proveniente da antiga União Soviética, iniciada ao final da década de 1980, fez a população estudantil saltar de 9.000 para 10.500, à época.

Com o passar dos anos, o Technion se manteve à frente das atividades tecnológicas do país, em áreas como defesa, dessanilização e energia nuclear. A partir da década de 1980, as pesquisas realizadas em seus laboratórios permitiram a rápida expansão das indústrias de alta tecnologia israelense.

Sua renomada reputação pela excelência fortaleceu-se através da intensificação da pesquisa em várias áreas que vão desde opções de poder nuclear para Israel a um novo programa de engenharia marinha, e também um trabalho pioneiro no campo da robótica industrial. Para atender a crescente demanda por engenheiros e cientistas altamente treinados, foi necessário expandir o campus universitário. Atualmente, o Technion engloba 18 faculdades em uma área de 1.325.000 m2 e um total de 12.500 alunos estudam em seu campus. .Desde sua fundação, em 1924, já formou mais de 85 mil alunos. Pesquisas recentes indicam que o Instituto responde por mais de 70% dos fundadores e diretores de empresas de alta tecnologia israelense e 75% dos diretores da indústria eletrônica do país passaram por suas faculdades.

Transferência de tecnologia

Hoje, a exemplo do que acontece em todas as universidades israelenses, o Technion possui um departamento voltado ao setor de transferência de tecnologia. Denominado T³ - o Technion Technology Transfer é a porta de acesso às mais avançadas inovações e pesquisas científicas desenvolvidas na instituição. Fazem parte dos objetivos deste departamento acompanhar os projetos inovadores desde a formatação das idéias passando pelo processo de desenvolvimento, licenciamento, até a formação de parcerias com fundos de investimentos e a indústria. O escritório de transferência cuida, também, da formação de novas empresas (spin-off companies) que têm por base pesquisas desenvolvidas por seus acadêmicos e estudantes, assessorando-os em questões ligadas a patentes, planos de negócios e comercialização de produtos.

Não faltam exemplos do que pode acontecer quando investimentos em educação, docentes de alto nível, pesquisa e desenvolvimento estão lado a lado. Na década de 1970, por exemplo, equipes de docentes e discentes do Technion projetaram um gigantesco coletor de energia solar usado para pesquisa. E, no início dos anos 1990, alunos desenvolveram e lançaram o Gurwin TechSat II, um micro-satélite totalmente projetado por eles. Com esta realização, a instituição tornou-se uma das cinco universidades no mundo a manter um programa estudantil para design, construção e lançamento de seu próprio satélite. Os alunos da Faculdade de Ciências da Computação construíram o “Rahfan” – um micro-helicóptero de robótica que navega, fotografa e faz manobras, independentemente. A invenção pode ser usada em operações especiais.

Há menos de dois anos a empresa israelense Teva Pharmaceuticals, uma das maiores do mundo no segmento de medicamentos genéricos, obteve autorização da Agência Americana de Drogas e Alimentos (Food and Drug Administration – FDA) para o Azilect, um fármaco para o tratamento do mal de Parkinson. O remédio foi desenvolvido por Moussa Youdim e John Finberg, dois pesquisadores do Technion.

O mercado de medicamentos para o tratamento de Parkinson supera o patamar dos US$ 3,7 bilhões por ano. Outra notícia amplamente divulgada pela mídia internacional foi o desenvolvimento de um nariz eletrônico, à base de nanopartículas de ouro, que poderá servir de teste-diagnóstico do câncer do pulmão. Este nano-receptor detecta no ar expirado quantidades ínfimas de pequenas moléculas carbonadas – os componentes orgânicos voláteis (COV) – cuja quantidade é alterada em pessoas que sofrem desse tipo de câncer. Uma detecção precoce do câncer do pulmão – causa principal da mortalidade por câncer no mundo, com 900.000 mortes por ano e menos de 15% de sobrevida em cinco anos – aumentaria teoricamente as chances de cura ou de sobrevida dos doentes. O trabalho foi desenvolvido pela equipe do professor Hossam Haick.

Em 2008, o professor Haim Abramovich, da Faculdade de Engenharia Aeroespacial do Technion, causou sensação quando anunciou que a empresa de sua criação, a Innowattech, desenvolvera uma tecnologia para geração de energia a partir de veículos em alta velocidade pela estrada. A empresa está fazendo algumas demonstrações-piloto: “Embutimos diferentes tipos de geradores sob a superfície do asfalto e estamos utilizando caminhões para correrem por cima dos geradores. Assim, captamos a energia produzida pela pressão dos pneus dos caminhões”, explica o professor. Outra proposta da Innowattech é a implementação do sistema nas pistas dos aeroportos, conseguindo que estes revertam a captação de energia das aterrissagens e decolagens dos aviões, bem como a intensa circulação de passageiros que ocupam quase permanentemente esses espaços, para a sustentação energética dos próprios aeroportos.

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Com um perfil diversificado de pesquisas, a inovação pode ser encontrada em todas as suas unidades, assim como as parcerias com empresas. Um exemplo é o SunPal, um produto desenvolvido em conjunto com a empresa Skylard, que indica quando é necessário reaplicar o protetor solar ou ir para a sombra. Disponível em formato de pequenos adesivos ou pulseiras, o produto deve ser colocado na região do corpo que será exposta ao sol. O usuário precisa passar o protetor solar sobre o adesivo para ativá-lo. O SunPal imita as reações da pele, mudando de cor de acordo com a exposição aos raios solares. “Quando o protetor precisa ser reaplicado, o adesivo fica marrom. Se a pele da pessoa já recebeu o máximo de radiação que pode agüentar sem se queimar, o mesmo fica laranja”, explica o físico Ori Faran, diretor da Skylard.

Não há dúvida de que as extraordinárias conquistas israelenses no campo da alta tecnologia, da indústria de ponta e farmacêutica são resultado direto dos avanços científicos e dos conhecimentos fornecidos a milhares de alunos nas universidades de Israel, das quais o Technion é um belo exemplo.

Dados Gerais do Instituto Technion

- Localização: Monte Carmel, Haifa
- Área: 1.300.000 metros quadrados
- Área construída: 446 mil metros quadrados
- Edifícios: 87
- Faculdades: 18
- Graduação: 9.000 alunos
- Mestrandos: 2.300
- Doutorandos: 900
- Total de estudantes: 12.500
- Docentes: 542
- Técnicos, instrutores e monitores: 1.200
- Capacidade dos dormitórios: 4.000 pessoas
- Número de alunos formados desde sua fundação: cerca de 85.000

Fontes: Revista Morasha Edição 68 - junho de 2010

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Entre o espiritual e o material - Marcelo Gleiser

domingo, 31 de outubro de 2010

Entre o espiritual e o material

Marcelo Gleiser


O material sem o espiritual é cego, e o espiritual sem o material é fantasia. Nossa humanidade está na interseção
EXISTIMOS NESSA FRONTEIRA, não muito bem delineada, entre o material e o espiritual. Somos criaturas feitas de matéria, mas temos algo mais. Somos átomos animados capazes de autorreflexão, de perguntar quem somos.

Devo dizer, de saída, que espiritual não implica algo sobrenatural e intangível. Uso a palavra para representar algo natural, mesmo intangível, pelo menos por enquanto.

Pois, se olharmos para o cérebro como o único local da mente, sabemos que é lá, na dança eletro-hormonal dos incontáveis neurônios, que é gerado o senso do "eu".

Infelizmente, vivemos meio perdidos na polarização artificial entre a matéria e o espírito e, com frequência, acabamos optando por um dos dois extremos, criando grandes crises sociais que podem terminar em atrocidades.

Vivemos numa época onde o materialismo acentuado -do querer antes de tudo, do eu antes do outro, do agora antes do legado-, está por causar consequências sérias.

Lembro-me das sábias linhas do filósofo Robert Pirsig, no clássico "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas": "Nossa racionalidade não está movendo a sociedade para um mundo melhor. Ao contrário, ela a está distanciando disso".

Ele continua: "Na Renascença, quando a necessidade de comida, de roupas e abrigo eram dominantes, as coisas funcionavam bem.

Mas agora, que massas de pessoas não têm mais essas necessidades, essas estruturas antigas de funcionamento não são adequadas. Nosso modo de comportamento passa a ser visto como de fato é: emocionalmente oco, esteticamente sem sentido e espiritualmente vazio".

O ponto é claro: atingimos uma espécie de saturação material. Para chegar a isso, sacrificamos o componente espiritual. O material é reptiliano: "Eu quero, eu pego. Se não consigo, eu mato (metaforicamente ou de fato). O que quero é mais importante do que o que você quer".

Claro, progredimos muito, dando conforto a milhões de pessoas, mas, no frenesi do sucesso, deixamos de lado o que nos torna humanos. Não só nossas necessidades, mas nossa generosidade, nossa capacidade de dividir e construir juntos.

Quando nossa sobrevivência está garantida, recaímos em nosso modo reptiliano de agir -autocentrado- e esquecemos da comunidade.

A diferença entre nossa realidade e a de Pirsig, que escreveu essas linhas acima em 1974, é que um novo tipo de conscientização está surgindo, em que o senso de comunidade está migrando do local ao global.

Isso me deixa otimista.

Em todo o planeta, um número cada vez maior de pessoas entendeu já que os excessos materialistas da nossa geração precisam terminar. Não é apenas porque o materialismo desenfreado é superficial. É porque é letal, tanto para nós quanto para a vida à nossa volta.

Olhamos para nosso planeta de modo que não olhávamos 20 anos atrás. O sucesso do filme "Avatar" não teria sido o mesmo em 1990.

O momento está chegando para um novo tipo de espiritualidade, que nos levará a uma existência mais equilibrada, onde o material e o espiritual mantêm um balanço dinâmico. O material sem o espiritual é cego, e o espiritual sem o material é fantasia. Nossa humanidade reside na interseção dos dois.
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Parashat “Jaié Sara” Autor: Rabino David Frankel*

Parashat “Jaié Sara”
Autor: Rabino David Frankel*

Interpretación y comentario
“La tierra de Israel es la cuna del pueblo judío”; así comienza la Declaración de Independencia sus palabras sobre la historia judía y la relación entre el pueblo de Israel y la tierra de Israel. A pesar de que esta frase se considera quizás obvia para muchos judíos, en realidad, es muy difícil comprobarla.
Ishaiahu Leibowitz dice punzantemente: “La Declaración de Independencia del Estado de Israel comienza con una mentira intencional. El pueblo judío no nació en la tierra de Israel, sino que llegó a la tierra de Israel como un pueblo consolidado”. Efectivamente, según la Torá, el pueblo de Israel se consolidó como tal en Egipto y en el desierto. Ellos ingresaron a la tierra de Israel cuando la Torá de Israel estaba en sus manos y el culto ritual a Dios en el Tabernáculo ya estaba activo. Más aún, las raíces más antiguas del pueblo de Israel se encuentran fuera de la tierra de Israel. Abraham, que nació fuera de la tierra de Israel, se preocupó por que su hijo Isaac no se case con mujeres de la tierra de Canaán. Él envió a su siervo a traer una mujer para su hijo “de su tierra y de su lugar natal” (Aram Naaraim, Génesis 24:10). El envío del siervo allá no sólo tenía el objetivo de evitar que Isaac se case con una mujer de la tierra de Canaan, -puesto que para ello Abraham podría haber enviado a su siervo a cualquier lugar fuera de Canaan-, sino que Abraham insistió que su siervo vaya a su tierra natal porque quiso fortalecer sus vínculos justamente con su tierra y hasta reservar para su familia por lo menos una parte de su herencia cultural de “Aram Naaraim”. Por lo tanto, culturalmente, las raíces del pueblo de Israel se encuentran fuera de la tierra de Israel.
Por otro lado, se podría encontrar una base a las palabras de la Declaración de Independencia en el libro de Ezequiel 16:3: “Así dijo Dios sobre Jerusalén: Tu origen, tu nacimiento es de la tierra de Canaán; tu padre fue amorreo y tu madre hetea”.
Jerusalén es descripta como una niña arrojada en el campo. Cuando Dios pasó por allí y la vio sucia en sus sangres, la revivió, la crió y al final cuando creció, “extendió su manto sobre ella” (se refiere a relaciones sexuales) y llegó a un pacto con ella. Al final de la descripción dice que la novia se prostituyó con imágenes de hombres, y ofreció a ellas a sus hijos, los cuales concibió con Dios. Esta imagen descriptiva de las relaciones entre el Dios de Israel y el pueblo de Israel es una excepción en la Biblia. Aunque en el mundo de la mitología son muchas las descripciones de dioses que tienen relaciones sexuales con seres humanos y conciben héroes, aquí encontramos la descripción del Dios de Israel que, supuestamente, tiene relaciones sexuales con la virgen Jerusalén y Él también concibe hijos. Estas palabras constituyen una alegoría, pero evidentemente se trata de una descripción mitológica.
Sobre la niña abandonada se dice que “su padre era amorreo y su madre hetea”. Según Moshé Grinberg en su comentario al libro de Ezequiel, el profeta quería burlarse de Israel y reprocharlo; por lo tanto, destacó las raíces paganas de Jerusalén anteriores a la conquista del rey David.
Puesto que la profecía no habla sólo de Jerusalén y sus habitantes, sino de todo el pueblo de Israel, se puede ver en este versículo mucho más. El capítulo de Ezequiel refleja una concepción fuera de lo común en la Biblia. Según el mismo, la genealogía del pueblo de Israel tiene raíces en las familias de Canaán. Los padres de “los hijos de Israel” son los amorreos y los heteos. Aún más, el pueblo de Israel nació en Canaán. Si bien los padres cananeos arrojaron a la niña “en el campo”, su origen es la tierra de Canaán, y por lo tanto, cuando el pueblo entró de nuevo a la tierra, volvió a su “tierra natal”.
Aquí, quizás, se puede ver una base bíblica antigua al concepto que refleja la Declaración de Independencia sobre el nacimiento del pueblo de Israel en la tierra de Israel.
El versículo de Ezequiel también puede brindar una nueva interpretación al relato de la cueva de Majpelá de nuestra parashá. Según él, se puede ver en el relato de su compra una polémica contra el concepto de “tu madre es hetea”, puesto que el relato cuenta que Sara fue sepultada en una tumba en medio del territorio de los heteos, en la cueva que estaba en el extremo del campo de Efrón. Este hecho conocido podría haber sido explicado como una señal de las raíces heteas de Sara, acorde a lo dicho en Ezequiel 16. Por lo tanto, el relato se ocupa de destacar que la tumba en la cual fue enterrada Sara no es realmente una tumba hetea, porque el terreno adquirido con dinero frente al público heteo, se convirtió desde entonces en un área “israelita”.
Abraham no tomó una mujer de la tierra de Canaán, de las mujeres de Het. Quien lo hizo fue Esav y el asunto amargó a sus padres (Génesis 26:34-35). Justamente Esav, que se casó con mujeres de Het, perdió la “bendición de Abraham” sobre la herencia de la tierra.
¿Por qué los libros de la Biblia destacan que nuestros patriarcas vinieron de fuera de la tierra de Israel y tomaron sus mujeres de sus lugares de origen, y que los hijos de Israel entraron a Canaán desde Egipto cuando la Torá estaba en sus manos? ¿Por qué no fue aceptado el concepto de Ezequiel? La respuesta estaría relacionada al peligro de la creencia nacional, -aquella que la Declaración de Independencia quiso cultivar-, de que la tierra de Israel es nuestro lugar de origen “natural”. La Torá quiere enseñarnos que la vida nacional en la tierra de Israel no es un valor en sí mismo, sino que depende de otros valores más elevados. Nuestro asentamiento en la tierra de Israel no es un derecho obvio ni tampoco un acto de misericordia incondicional. El pueblo de Israel, según la Biblia, es un retoño extranjero en la tierra de Israel. Sólo cuando él cumple su elevado objetivo espiritual, obtiene el derecho de heredar la tierra de Canaán.
*Profesor de Biblia, Instituto Schechter de Estudios Judaicos, Jerusalén

Editado por el Instituto Schechter de Estudios Judaicos, la Asamblea Rabínica de Israel, el Movimiento Conservador y la Unión Mundial de Sinagogas Conservadoras.
Traducción: rabina Sandra Kochmann

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Olhando para o início do tempo - Marcelo Gleiser

sábado, 23 de outubro de 2010

Olhando para o início do tempo


Marcelo Gleiser


Nada do que vemos no céu existe no presente. Objetos podem não existir mais ou terem mudado por completo
Na semana passada, astrônomos declararam ter encontrado o objeto mais distante visto até hoje: uma galáxia a 13,1 bilhões de anos-luz da Terra. Como comparação, a idade da Terra é de 4,6 bilhões de anos, e a do Universo, de 13,7 bilhões de anos. Ou seja, a luz capturada pelos telescópios terrestres deixou essa galáxia 600 milhões de anos após o início do tempo. Isso pode parecer muita coisa, mas para a cosmologia, que estuda tempos de bilhões de anos, não é praticamente nada.

Olhar para o céu é olhar para o passado. Isso porque a luz tem uma velocidade finita, sempre demora um pouco para ir de um ponto a outro. Por exemplo, o Sol fica a oito minutos-luz da Terra: a luz demora oito minutos para viajar do Sol até nós. Nada do que vemos no céu existe no presente. Objetos distantes podem até mesmo não existir mais, ou ter mudado completamente.

Com certeza, a galáxia de 13,1 bilhões de anos é hoje muito diferente do que era quando a luz saiu dela há 13,1 bilhões de anos. Ela pode ter crescido, engolindo outras galáxias menores, ou pode ter sido engolida.

Naquela época, perto da infância do Cosmo, as estrelas eram todas jovens, muito luminosas, feitas principalmente de hidrogênio e de hélio, os dois elementos químicos mais leves. Com o passar do tempo (centenas de milhões a bilhões de anos), as estrelas foram "envelhecendo" e produziram elementos mais pesados, como o carbono.

Na sua infância, o Cosmo tinha uma tabela periódica bem simples, só com uma meia dúzia de elementos! Portanto, os astrônomos sabem que objetos constituídos apenas de elementos químicos leves são bastante jovens.

Como os cientistas podem determinar a idade de um objeto que existiu antes mesmo da formação do Sol e da Terra? Toda informação da astronomia vem de alguma forma de luz recolhida por telescópios. A história dos céus está registrada na luz que viaja pelo espaço nos seus diversos comprimentos de onda- das ondas de rádio (as mais longas) aos raios X e gama (as radiações mais energéticas).

No caso de objetos muito antigos, sua constituição química é simples. Fora isso, sua luz é muito fraca, diluída tanto pela distância quanto pela expansão do Universo. Por isso, são necessários telescópios enormes, com espelhos de mais de dez metros de diâmetro, para captá-la. Auxiliados, claro, pelo fantástico Telescópio Espacial Hubble.

A composição química dos objetos astronômicos é estudada analisando os detalhes da luz que emitem. Cada elemento químico emite luz em cores (frequências) específicas. Dizemos que cada um tem sua impressão digital, registrada em seus espectros luminosos.

Ao colher a luz de uma estrela ou galáxia, astrônomos a comparam com catálogos existentes para determinar os elementos químicos presentes. Tudo isso só é possível porque as leis da física e da química são as mesmas em todos os cantos do Cosmo e em todas as épocas.

Caso isso não fosse verdade, seria impossível estudar os céus. A ciência ficaria relegada ao que ocorre somente no nosso mundo, e jamais descobriríamos que somos descendentes das estrelas, e que cada átomo de nosso corpo pertenceu, um dia, a uma estrela que já não existe mais.
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Discurso de Peres en la Knéset el 13 de noviembre de 1995

Al asumir el cargo de primer ministro en forma interina, Shimón Peres habló en el plenario de la Knéset y dijo entre otras cosas lo siguiente:
Ayer, miércoles 20, en la Plaza Itzjak Rabin, vimos los cientos de miles de personas que vinieron, en un silencio que no parecía de este mundo, para escuchar las penetrantes y emotivas palabras de Lea Rabin. Era posible sentir el duelo que había descendido sobre toda la nación. Vimos a los jóvenes de Israel llorando como nunca antes en la tumba de Itzjak.
Cuando su corazón dejo de latir, la generación joven se reveló ante nuestros ojos como una generación seria que tocó nuestros corazones con su insistencia en mantener encendidas las velas del duelo; una generación que rezó con sus propias palabras, que lloró lagrimas candentes, que trajo las flores de la paz con manos temblorosas.
Esta joven generación perdió a un capitán que había cautivado sus corazones, con quien pudieron identificarse. La nación perdió a su capitán y descubrió una nueva generación.
¿Es sorprendente esta identificación? De ser así, no seria justificable. La esencia del camino de Itzjak, quizás el secreto de su liderazgo, se basaba en su total dedicación a esta generación que lo llora compungida.
La política de paz formulada bajo su liderazgo decía esencialmente lo siguiente: que supere nuestra generación, la generación experimentada, este gran conflicto y emita una decisión clara, para que la generación joven se libere en el futuro de los difíciles dilemas que enfrentamos a diario, para que pueda despegar en una pista libre de obstáculos e ilusiones y se pose en el próximo siglo con la capacidad de competir con otros jóvenes de todo el mundo, portando con orgullo la antorcha del nuevo Israel.
Últimamente, el liderazgo de Itzjak Rabin se había practicamente concentrado en este gran esfuerzo, no en la búsqueda del poder efímero.
Durante nuestras conversaciones nos quedo claro a ambos, que si continuábamos aferrándonos al presente, sólo conseguiríamos perdernos más en el callejón sin salida de una dinámica demográfica sobre la que no tenemos control. Esta realización nos llevo a la clara conclusión de que si evadimos la decisión ahora, se crearía automáticamente un Estado bi-nacional. La decisión, por dolorosa que sea para nuestra generación, garantizará el carácter judío y democrático de Israel, y del futuro también.
Estábamos convencidos de que era mejor decidir, en vez de poner en peligro a la próxima generación de perder su mayoría, de perder las posibilidades de paz, de perder la oportunidad de crear una coalición regional contra el mayor de los peligros: un fundamentalismo sin sentido, armado con armas modernas.
Sabíamos que muchos en este recinto desean la paz, pero también que la paz tendría un precio. No podrá haber paz sin que haya un acuerdo con nuestros vecinos. No existe una paz que no incluya el factor territorial. Sabíamos que una paz impuesta es una paz imaginaria y temporal. La verdadera paz debe ser defendida por ambos bandos en conflicto.
Itzjak Rabin desdeñaba las ilusiones. Todas sus fuerzas las dirigió a la creación de un mapa realista que pudiera garantizar la seguridad del Estado, la paz para su juventud y la comprensión con sus vecinos.
En la tumba de Itzjak, la nueva generación, súbitamente activa en política, se adhirió a una paz que también es joven, cuyos elementos aún están en su infancia. En la tumba de Itzjak, tanto la generación nueva como la joven paz, en sus nuevas manifestaciones, se revelaron simultáneamente. Por primera vez, aquí, en la tierra de Jerusalén, vimos a los líderes de Egipto y Jordania, a los representantes de Marruecos, Omán, Qatar, Mauritania y la Autoridad Palestina, inclinar su cabeza ante la tumba del líder de la paz, quien fue también el defensor de Jerusalén.
En el Monte Herzl se formó una montaña de flores sobre la tumba de Itzjak, guirnaldas de flores en memoria a la visión de Herzl, en cuyo honor fue nombrado el monte: el padre del Estado judío, quien supo que toda gran realidad nace de un sueño que parece distante.
El proceso de paz representa la singularidad del Gobierno que él dirigió. No una paz teórica, sino una paz realista. El primer ministro fue asesinado debido a este proceso.
Aún no hemos logrado plenamente la paz. Incluso la paz que ya hemos logrado no está completa. Pero la paz es un nuevo paisaje en nuestra región, que solamente ha conocido guerras y derramamiento de sangre. Es un paisaje con poder revolucionario. Hemos visto este poder reflejado en el duelo que se sintió en los territorios. La paz ahora esta envuelta con una cinta negra. Pero este duelo también ha dado origen a una esperanza.
Debemos continuar el proceso de paz. Esto era lo que Itzjak quería. Esa era la canción que estaba en sus labios en los últimos momentos de su vida.
Hemos de cumplir cada compromiso que hemos hecho con nosotros mismos: seguridad para Israel y los israelíes, respeto por los principios acordados con los palestinos, paz con Egipto y Jordania, y búsqueda de la paz con Siria y el Líbano.
No puedo evitar recordar una experiencia que tal vez fue la mas larga que compartimos, cuando viajamos juntos por los Estados africanos. Fuimos a Kenia luego que lograra su independencia, y Kenyatta nos contó de los 40 años que estuvo su pueblo en el desierto. Fuimos a la corte del Negus de Etiopía y vimos al cachorro del León de Judea, representado a su estilo. Itzjak me dijo entonces: “Vamos a ver las fuentes del Nilo”. Estaba entonces lleno de energía, joven, con su cabellera roja, con dos cámaras fotográficas, una a color y la otra en blanco y negro. Caminamos y caminamos; Itzjak fotografió cada una de las cataratas, insistió en trepar cada colina. Me sorprendió un poco verlo saltando entre las cataratas y trepando montañas con sus dos cámaras, y le pregunte: “¿Para que tomas tantas fotografías?” A lo que respondió: “Tengo una imagen general, pero quiero ver cada fotografía separadamente, de manera precisa y con lujo de detalles, en blanco y negro y en color”.
Esa era su esencia: cada imagen precisa, detallada, con todos sus colores, sin perder el marco general. Su visión llegaba lejos y era clara. Nos dejó logros prodigiosos y también mucho por hacer. Bendita sea su memoria

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Parashat “Vaierá” - Autor: Ruth Berger*

Parashat “Vaierá” Autor: Ruth Berger* Interpretación y comentario Soren Kierkegaard, filósofo danés de fines del siglo XIX, dijo: “infinitas generaciones conocieron la historia de Abraham de memoria, palabra por palabra. Pero, ¿a quién de todos ellos esta historia les sacó el sueño?”. En su libro “Temor y Temblor”, Kierkegaard destaca que existe una contradicción entre la disposición de Abraham a sacrificar a su hijo y la concepción ética aceptada. Queda claro que Abraham -y especialmente Abraham- tenía una forma de razonamiento ética. ¿Cómo, entonces, puede ser que la orden Divina superó esa orden ética? Kierkegaard argumenta que existe una situación de fe que está más allá de todo razonamiento. El caso de Abraham no es igual al caso de Agamenón, que sacrificó a su hija para los dioses. Agamenón recibe la orden de los dioses de boca de los videntes. Él se encuentra frente a un dilema: el amor por su hija por un lado, y la salvación del pueblo por el otro. Cualquiera de las dos opciones es mala. Agamenón es un héroe trágico. El dilema de Abraham es consigo mismo. El conflicto es entre la orden Divina que le es dada sólo a él y la orden ética general, común a todos los seres humanos. El conflicto ocurre en el corazón del creyente, y él no puede compartir sus dudas con nadie. Abraham no comparte su angustia con Sara, no por el veto que ella pueda imponer al sacrificio de Isaac, sino por el hecho de que la orden Divina le fue dada sólo a él, y no puede haber socios en una orden Divina dada de manera individual. La decisión si seguir o no la orden Divina particular o seguir la orden ética, es una decisión del individuo. Sólo el único y especial, sólo una persona como nuestro patriarca Abraham, podía saber si aquélla era una orden Divina y no de espíritus burlones que lo rodeaban. Sólo una persona del nivel de Abraham podía saber que ésas eran palabras del Dios Viviente, y no del Satán. No hay ningún tipo de criterio exterior en el cual el creyente pueda apoyarse en su decisión. Sólo su fe le sirve de guía. Según Kierkegaard, “existe la anulación de la orden ética por causa de la orden religiosa”. S. H. Bergman, en su artículo “El sacrificio de Isaac y el hombre de hoy”, compara la idea de la anulación de la orden ética por causa de la orden religiosa de Kierkegaard, a la idea de “haremos y luego escucharemos” del pueblo judío. Obediencia completa sin dudar ni vacilar. Esta actitud es peligrosa. Todos sabemos qué tipos de acciones terribles fueron cometidas en nombre de una obediencia religiosa ciega. Debemos analizar nuestras acciones usando nuestra razón. Nuestra capacidad de juzgar debe orientar nuestras vidas. No hay que anular el poder de la experiencia religiosa que llevará a la acción, pero el razonamiento, la crítica, la sensatez y la ética, deben guiar nuestras acciones. Bergman no juzga a Abraham, pero se puede aprender de sus palabras que la acción de sacrificio de Abraham no es un caso en el cual “las acciones de los padres sirven de ejemplo para los hijos”. Shulamit Hareven dice que Abraham fracasó. Abraham no superó la prueba. El sacrificio de niños para Molej era una costumbre idólatra, y Abraham, el primer monoteísta, debía haberse negado a realizar la acción pagana. Según Hareven, Abraham aún no se había liberado del mundo idólatra del cual venía y en el cual vivió. El verdadero mensaje del relato surge de su final, cuando el ángel de Dios dice: “No extiendas tu mano contra el niño”, lo que signfica la total anulación de los sacrificios de niños. Es difícil aceptar esta concepción sobre el relato del sacrificio de Isaac. En la tradición judía, este hecho fue la última y más grande prueba superada por Abraham. Es la parte de la Torá elegida para ser leída el segundo día de Rosh Hashaná. En el rezo de Musaf del mismo día, rogamos y decimos: “Recuerda en nuestro favor Tu Pacto, Tu merced y la promesa que formulaste a nuestro patriarca Abraham en el Monte Moriá, cuando ató a su hijo Isaac sobre el altar, sobreponiéndose a su afecto y dominando sus sentimientos, para cumplir Tu mandato con todo el corazón. Asimismo, Dios nuestro, supere Tu ternura a Tu ira”. Se supone que del relato del sacrificio debemos absorber fuerza y fe. Generaciones de judíos absorbieron del mismo, poder y autoridad moral cuando fueron expuestos a la hoguera para “santificar el nombre de Dios”. ¿Será que podemos anular esta concepción enraizada tan profundamente en la tradición del pueblo de Israel y cambiarla por un pensamiento “lógico”? No tengo respuesta. Para mí, la pregunta queda abierta y cada vez que leo esta parashá, debo enfrentarme a ella de nuevo. *Miembro de la Comunidad “Masortit Mishpajtit de Beit HaKerem”, Jerusalén Texto dedicado a la memoria de mi hijo Rafi Berger, muerto en el atentado en el Tzomet Pat, el 8 de Tamuz de 5762, 18 de junio de 2002. Editado por el Instituto Schechter de Estudios Judaicos, Asamblea Rabínica de Israel, Movimiento Conservador y Unión Mundial de Sinagogas Conservadoras. Traducción: rabina Sandra Kochmann
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CARTA ABERTA AOS JUDEUS POR OPÇÃO

Dr. Lawrence J. Epstein
(Este artigo foi publicado originalmente em outubro de 1994)


Queridos Amigos,

Nós que nascemos judeus precisamos de vocês.

Há cerca de 200.000 de vocês lá fora. Um em cada 37 judeus norte-americanos é um judeu por opção em vez de um judeu de nascença. (1)

Muitos de vocês assumem papéis de liderança em suas congregações e organizações, tornam-se presidentes, líderes da juventude e professores em nossas escolas judaicas. Alguns de vocês, com silenciosa dignidade, são líderes em casa, onde transmitem a herança judaica com rara beleza. Vocês aprendem judaísmo com seus filhos. Mais de uma vez vocês ensinaram ao seu parceiro nascido judeu alguma nova reflexão sobre judaísmo. Alguns de vocês absorveram tão plenamente o judaísmo que vocês mesmos imaginam terem nascido acidentalmente na família errada. Outros de vocês vêem uma continuidade entre a sua identidade anterior e a atual. Alguns de vocês levam a sua nova identidade com uma alegria simples. Outros de vocês escrevem e falam eloqüentemente sobre suas viagens espirituais. Outros ainda falam por meio de seus atos, silenciosos e particulares, quando acendem velas, assam a chalá, rezam, visitam os doentes em um hospital local. Alguns de vocês, sob uma justificativa talmúdica, não querem ser lembrados da sua identidade religiosa anterior e, portanto, não acham justo serem chamados de convertidos ou de judeus por opção; outros de vocês não se preocupam com esta denominação e em geral a aceitam com orgulho. Eu espero que todos vocês me perdoem se eu me reporto a vocês como judeus por opção e não simplesmente pelo que vocês são: judeus.

Vocês têm o potencial para fazer, como grupo, uma contribuição histórica para a vida judaica. Nós, que temos exigido tanto de vocês, voltamos a chamá-los e pedimos ainda mais. Vocês podem mudar a vida judaica americana.

Sim, nós precisamos dos seus números. Vocês 200.000 e seus filhos se somam à nossa densidade demográfica [americana] e, desse modo, à nossa capacidade política e econômica. Vocês contribuem com as nossas comunidades, nos ajudando a sustentar nossas vidas comunitárias. Sim, nós precisamos das suas contribuições para caridade, precisamos de vocês como sócios, precisamos do seu tempo. Sim, nós precisamos que vocês sirvam de modelo para não-judeus casados com judeus, de modo que eles considerem a possibilidade de se converterem e, olhando para vocês, vejam isso como uma escolha positiva. Nós precisamos de vocês por todas essas razões prudentes e por tantas outras. Mas essas não são as razões que eu tenho em mente. Vocês podem fazer uma contribuição mais profunda, uma que é definitivamente espiritual.

O que nós precisamos de vocês? O que vocês podem fazer? Eis algumas sugestões. Eu espero que vocês as considerem e acrescentem muitas outras por conta própria.

(1) Nós precisamos que vocês nos contem as suas experiências. Precisamos ouvir as suas histórias. Houve um grande lapso de tempo na história judaica deste a última vez em que um grande número de pessoas se tornou judeu. Suas histórias tornam a conversão mais familiar para nós. Vocês nos remetem ao nosso passado, quando o judaísmo aceitava um número incontável de pessoas em seu meio e tinha orgulho disso, vendo nesse esforço um modo de cumprir o mandamento Divino de oferecer o judaísmo para o mundo. Vocês nos fazem recordar do nosso propósito universal, um que negligenciamos.

Por favor, contem-nos sobre a sua luta interna para decidir se o judaísmo era o caminho certo para vocês. Contem-nos sobre seus conflitos com seus pais, sobre seus encontros com algum de nós que lhe proferiu uma palavra ruim, sobre seus encontros com algum de nós que lhe demonstrou bondade. Nós precisamos ouvir sobre os seus medos secretos e sobre suas boas recordações que são difíceis de serem deixadas para trás.

Contem-nos por que vocês quiseram se tornar judeus. É extremamente importante para nós ouvirmos que há pessoas que escolhem voluntariamente aceitar uma identidade judaica. Nossas próprias identidades, tão frágeis como uma minoria na cultura americana, são fortalecidas através dessas escolhas; seus atos de escolher o judaísmo tornam ao mesmo tempo os nossos atos de permanecermos judeus mais fáceis e mais valiosos. Contem suas histórias às nossas congregações e organizações, para os nossos centros comunitários judaicos e grupos de jovens, para os nossos filhos nos colégios judaicos, e para os nossos pais nos grupos de terceira idade. Contem também as suas histórias para os seus amigos e familiares, para o mundo não-judeu. Se vocês desejarem, escrevam sobre suas experiências em um boletim congregacional, em um jornal local ou em um dos meios de comunicação judaicos nacionais.

(2) Aconselhem-nos. Contem-nos como podemos ser mais receptivos. Contem-nos o que podemos fazer em cada fase para tornar mais fácil a sua entrada e integração em nossa comunidade. Contem-nos como, juntos, podemos trazer ao conhecido do público que o judaísmo está disponível para aqueles que livremente o escolhem, que a conversão ao judaísmo é permitida, que qualquer um pode escolher se unir ao Povo Escolhido.

(3) Organizem-se. Falem como um grupo. Vocês podem desenvolver grupos de apoio para aqueles que pensam em se converter, que estão estudando para a conversão, e que completaram a conversão. Vocês podem monitorar casos em que os convertidos sofrem discriminação dentro da comunidade judaica e lutar para cessar com toda e qualquer discriminação. Vocês podem viajar juntos para Israel e mostrar para o povo e governo israelenses que os judeus por opção contribuem tanto com Israel quanto os nascidos judeus. Como um grupo, vocês podem pressionar a comunidade judaica a ser mais ativa em receber bem os convertidos. Vocês estão em uma posição singular para prover informação a não-judeus que estão interessados em aprender sobre judaísmo em geral, ou especificamente sobre conversão.

Há muito ainda para ser feito. Pode ser uma ironia, mas não obstante, é verdade que os judeus por opção podem prover um tipo de liderança estimulante capaz de revitalizar toda a comunidade judaica. Não fiquem tímidos. Não tenham dúvidas. Está na hora de entrar em ação. Obrigado.


(1) Calcula-se que cerca de 10.000 pessoas se convertam ao judaísmo todos os anos nos EUA. Portanto, em 2005 imagina-se que já são por volta de 300.000, ou 1 em cada 18 judeus americanos. (NT)





Créditos:

Texto adaptado do site em inglês www.convert.org com a permissão de Barbara Shair
Tradução: Uri Lam
Edição: Adriana Lacerda

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Quem matou Yitzhak Rabin? - Bernardo Sorj

Quem matou Yitzhak Rabin? Bernardo Sorj Como em todos os crimes contra grandes figuras da historia, a mão que segurou o revolver assassino não foi orientada por motivações individuais. Ela é sempre parte do fio de uma meada costurada por outros, próximos e distantes do assassino, que depois do evento, acabam, também, participando do coro de lamentações. O que dizer dos cartazes, em manifestações da oposição antes das eleições que escolheram Yitzhak Rabin como primeiro ministro, nos quais ele aparecia com roupas de oficial da SS? Simples exagero eleitoral? E das cerimônias que amaldiçoam e expressam o desejo de que o amaldiçoado morra— Pulsa di Nura — , realizadas por rabinos contra os políticos que se dispõem a negociar a paz com os palestinos? São apenas eventos exóticos? E dos gritos de “Nazis” e “Gestapo” com os quais foram recebidos os soldados e policiais que evacuaram os assentamentos de Gaza? Não passam de um episódio banal de acirramento dos ânimos? E das instruções de tantos rabinos para que os soldados desobedeçam às ordens dos oficiais relativas a retirada dos territórios? Simples retórica religiosa? Ou da granada que, antes do assassinato de Rabin, matou um israelense durante uma manifestação pela paz? Foi mais um ato isolado? Não nos enganemos: uma parte da sociedade israelense está doente, pois sofre de um fanatismo teológico/nacionalista que é, de alguma forma, compartilhado por aqueles setores da diáspora que a apoiam, ativa ou passivamente. Uma doença que alguns preferem ignorar por medo de “estar fazendo o jogo do inimigo” e/ou que procuram justificar pela situação de conflito. Atitude irresponsável, pois os fatos são todos de conhecimento público, e enfrentar suas consequências nefastas interessa em primeiro lugar aos judeus pois o silêncio só prejudica ao povo judeu e ao Estado de Israel. Todos os que se calam sobre uma ideologia que dificulta a possibilidade de se atingir a paz e que está transformando o Estado de Israel em um país onde grupos religiosos questionam cada vez mais o pluralismo e a liberdade de consciência individual, estão compactuando com ela. Uma ideologia que representa o oposto daquilo que dois mil anos de história judaica nos ensinara: que o segredo da sobrevivência está na sabedoria dos livros e no respeito à vida, que não idolatramos nem pedaços de pedra nem de terra, que o nacionalismo fanático é destrutivo, que a religião só pode preservar seu papel espiritual se estiver destituída do poder de impor crenças e que a chegada do Messias é um ideal espiritual em de um mundo mais harmônico e pacífico que não pode ser imposto pelas armas. Devemos ter a coragem de entender como surgiram no interior do povo judeu forças obscuras, porque elas nos dizem algo a respeito de cada um de nós, e quanto mais adiamos o momento de encará-las, com mais vigor elas vão nos atingir. Forças obscuras ancoradas em dois mil anos de história nos quais elaboramos a maioria das conquistas culturais das quais nos orgulhamos, mas que também nos levaram a recalcar emoções e desejos (de sermos poderosos, de impor a nossa vontade pela força, de xenofobia) que vieram à luz com a conquista do território palestino na Guerra de 1967. Junto com as emoções também foram reprimidos elementos de nossa cultura, que apresenta uma enorme diversidade de valores e relatos, muitos deles edificantes mas outros inaceitáveis no mundo contemporâneo. A falta de poder político na diáspora deixou na penumbra muitos elementos da tradição bíblica e talmúdica que não possuem nada em comum com valores democráticos e humanistas. O retorno das emoções e componentes reprimidos da cultura está acontecendo em setores nacionalistas/ultraortodoxos da diáspora e em Israel. E não nos iludamos, este retorno do reprimido não deve ser confundido, e não tem nada a ver, com o realismo político responsável que aconselha Israel a zelar pela sua segurança. É o retorno de crenças que ferem tanto a sensibilidade humanista quanto o realismo pragmático - pois nenhum império com os exércitos mais poderosos sobreviveu - , que sustentam visões fundamentalistas e xenófobas as quais acreditam que Deus está envolvido no conflito entre Israel e Palestina, e argumentam que a atual guerra é de caráter religioso e portanto não negociável. Quem matou Yitzhak Rabin há 15 anos? Fomos todos nós, porque não nos levantamos de modo suficientemente claro e vigoroso para dizer: não apoiamos os setores radicais da sociedade israelense, nos oporemos sempre que a política externa do Estado de Israel tiver como base o fanatismo nacionalista e quando a religião se misturar e confundir com agendas de poder. O autor é sociólogo e escritor
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Sobre a importância da ciência - Marcelo Gleiser

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre a importância da ciência



Apenas uma sociedade que que é versada na ciência pode escolher qual vai ser o seu destino de forma responsável


PARECE PARADOXAL QUE, no início deste milênio, durante o que chamamos com orgulho de "era da ciência", tantos ainda acreditem em profecias de fim de mundo. Quem não se lembra do bug do milênio ou da enxurrada de absurdos ditos todos os dias sobre a previsão maia de fim de mundo no ano 2012?

Existe um cinismo cada vez maior com relação à ciência, um senso de que fomos traídos, de que promessas não foram cumpridas. Afinal, lutamos para curar doenças apenas para descobrir outras novas. Criamos tecnologias que pretendem simplificar nossas vidas, mas passamos cada vez mais tempo no trabalho. Pior ainda: tem sempre tanta coisa nova e tentadora no mercado que fica impossível acompanhar o passo da tecnologia.

Os mais jovens se comunicam de modo quase que incompreensível aos mais velhos, com Facebook, Twitter e textos em celulares. Podemos ir à Lua, mas a maior parte da população continua mal nutrida.

Consumimos o planeta com um apetite insaciável, criando uma devastação ecológica sem precedentes. Isso tudo graças à ciência? Ao menos, é assim que pensam os descontentes, mas não é nada disso.

Primeiro, a ciência não promete a redenção humana. Ela simplesmente se ocupa de compreender como funciona a natureza, ela é um corpo de conhecimento sobre o Universo e seus habitantes, vivos ou não, acumulado através de um processo constante de refinamento e testes conhecido como método científico.

A prática da ciência provê um modo de interagir com o mundo, expondo a essência criativa da natureza. Disso, aprendemos que a natureza é transformação, que a vida e a morte são parte de uma cadeia de criação e destruição perpetuada por todo o cosmo, dos átomos às estrelas e à vida. Nossa existência é parte desta transformação constante da matéria, onde todo elo é igualmente importante, do que é criado ao que é destruído.

A ciência pode não oferecer a salvação eterna, mas oferece a possibilidade de vivermos livres do medo irracional do desconhecido. Ao dar ao indivíduo a autonomia de pensar por si mesmo, ela oferece a liberdade da escolha informada. Ao transformar mistério em desafio, a ciência adiciona uma nova dimensão à vida, abrindo a porta para um novo tipo de espiritualidade, livre do dogmatismo das religiões organizadas.

A ciência não diz o que devemos fazer com o conhecimento que acumulamos. Essa decisão é nossa, em geral tomada pelos políticos que elegemos, ao menos numa sociedade democrática. A culpa dos usos mais nefastos da ciência deve ser dividida por toda a sociedade. Inclusive, mas não exclusivamente, pelos cientistas. Afinal, devemos culpar o inventor da pólvora pelas mortes por tiros e explosivos ao longo da história? Ou o inventor do microscópio pelas armas biológicas?

A ciência não contrariou nossas expectativas. Imagine um mundo sem antibióticos, TVs, aviões, carros. As pessoas vivendo no mato, sem os confortos tecnológicos modernos, caçando para comer. Quantos optariam por isso?

A culpa do que fazemos com o planeta é nossa, não da ciência. Apenas uma sociedade versada na ciência pode escolher o seu destino responsavelmente. Nosso futuro depende disso.
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Cartas à nova geração - Rabi Sir Jonathan Sacks

Cartas à nova geração




Morashá Edição 69 - setembro de 2010

No ano passado, antes de Yom Kipur, o Grão Rabino do Reino Unido, Rabi Sir Jonathan Sacks, escreveu suas reflexões como se fossem 10 cartas de um pai a seus filhos. Para transmití-las à comunidade judaica britânica e do mundo afora, o Grão Rabino publicou-as na forma de um pequeno livro: Cartas à Nova Geração.

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A Sabedoria Judaica

Queridos filhos, ainda que a sabedoria seja um bem que não tem custo, é, no entanto, o mais caro de todos, já que costumamos adquiri-la através de um fracasso, um desapontamento ou sofrimento. Por isso, devemos tentar compartilhar nossa sabedoria com os demais, para que estes não tenham que pagar o preço que pagamos para conquistá-la.

Estas são algumas das lições que o judaísmo me ensinou sobre a vida e que desejo compartilhar com vocês:

Nunca tentem ser espertos. Tentem, sempre, ser sábios. Respeitem os outros ainda que estes os desrespeitem.

Nunca busquem publicidade pelo que fizerem. Se merecerem, a receberão. Se não a merecerem, serão atacados. De qualquer modo, a bondade não carece de chamar atenção sobre si.

Quando se pratica o bem a outrem, os beneficiários serão sua própria pessoa, sua consciência e seu auto-respeito. A maior dádiva da doação é a oportunidade de poder doar.

Na vida, nunca peguem os atalhos. Não há sucesso sem esforço, nem conquista sem empenho.

Afastem-se dos que procuram honrarias. Sejam respeitosos, mas lembrem que ninguém tem a obrigação de servir de espelho para os que estão apaixonados por si próprios.
Em tudo o que fizerem, não se esqueçam de que D’us tudo vê. Não há como enganá-Lo. Quando tentamos ludibriar os outros, geralmente a única pessoa que conseguimos enganar é a nós mesmos.

Sejam muito, mas muito cautelosos em julgar os outros. Se eles estiverem errados, D’us os julgará. Se formos nós os errados, seremos nós os julgados. Muito maior do que o amor que recebemos é o amor que damos.

Dizia-se de um grande líder religioso que ele era um homem que levava D’us tão a sério que nunca sentiu a necessidade dele próprio se levar a sério. Isso é algo a que vale a pena aspirar.

Usem bem o seu tempo. Nossa vida é curta, muito curta para ser desperdiçada diante da televisão, nos jogos de computador e nos e-mails desnecessários; muito curta para ser desperdiçada com fofocas ou invejando o que é dos outros; muito fugaz para sentimentos como raiva ou indignação; muito curta para perder tempo criticando nosso próximo. “Ensina-nos a contar os nossos dias”, diz o Salmista, “para que tenhamos um coração de sabedoria”. Mas um dia em que fazemos algo de bom a outrem não é um dia desperdiçado.

A vida lhes oferecerá muitos motivos de aborrecimento. As pessoas podem ser negligentes, cruéis, desatenciosas, ofensivas, arrogantes, duras, destrutivas, insensíveis e rudes. O problema é delas, não seu. Seu problema é como reagir a elas. Uma senhora sábia disse, certa vez, que “ninguém pode fazê-lo sentir-se inferior sem que você o permita”. O mesmo se aplica a outras emoções negativas.

Não reajam. Não respondam. Não se enraiveçam. Mas, se o fizerem, dêem um tempo até que a raiva se dissipe – e só então sigam em frente com a sua vida. Não dêem aos outros a vitória sobre o seu próprio estado emocional. Perdoem – ou, se não conseguirem, ignorem.

Se tentarem e não conseguirem, não se sintam mal. D’us perdoa nossas falhas no momento em que nós as reconhecemos como falhas. Isto nos poupa da auto-desilusão de tentar vê-las como “sucessos”.

Nenhuma das pessoas que admiramos teve sucesso sem ter enfrentado muitos fracassos pelo caminho. Grandes poetas escreveram poemas horríveis; grandes artistas pintaram telas indecifráveis; nem todas as sinfonias de Mozart foram obras primas. Se lhes faltar a coragem de falhar, faltar-lhes-á a coragem de vencer.

Sempre busquem a amizade daqueles que são fortes naquilo em que vocês são fracos. Nenhum de nós possui todas as virtudes. Mesmo um homem da estatura de Moshé precisou de um Aaron. O trabalho de uma equipe, uma parceria, a colaboração com os demais que têm dons ou diferentes maneiras de ver as coisas, é sempre mais do que o que um indivíduo pode conseguir sozinho.

Criem momentos de silêncio em sua alma se quiserem ouvir a voz de D’us.

Se algo estiver errado, não culpem os outros. Perguntem, “como posso ajudar para que dê certo?”

Sempre se lembrem de que vocês criam o ambiente que os cerca.
Se quiserem que os outros sorriam, vocês devem sorrir. Se quiserem que os outros dêem, vocês devem dar. Se quiserem que os outros os respeitem, vocês devem mostrar respeito por eles. A maneira como o mundo nos trata é um espelho de como tratamos o mundo.

Sejam pacientes. O mundo, às vezes, é mais lento do que vocês. Esperem até que os alcancem, pois se vocês estiverem no caminho certo, o mundo acabará por alcançá-los.

Nunca estejam com o ouvido tão próximo do solo que não dê para ouvir o que diz alguém de pé.

Jamais se preocupem quando dizem que vocês são por demais idealistas. Apenas os idealistas conseguem mudar o mundo; e será que vocês querem que este mundo permaneça imutável, ao longo de sua vida?

Sejam corretos, honestos e façam sempre aquilo que disserem que irão fazer. Não há, realmente, outra maneira de se levar a vida.

Rabino Chefe, Lorde Jonathan Sacks

Rabino Chefe das Congregações Judaicas Unidas da Commonwealth britânica desde setembro de 1991, Jonathan Sacks nasceu em Londres em 1948, e foi ordenado rabino pelo Jews' College e pela Yeshivá Etz Chaim, obtendo, posteriormente, o Doutorado em Filosofia no renomado King’s College de Londres. Personalidade marcante, colabora freqüentemente com a mídia inglesa, através do rádio, televisão e dos grandes jornais. Escritor prolífico, muitos de seus livros foram traduzidos ao francês, italiano, holandês, alemão, português, coreano e hebraico. Logo após ser alçado ao importante cargo, o Rabino Chefe lançou um projeto intitulado “Uma Década de Renovação Judaica”, que desencadeou uma série de projetos comunitários inovadores. Entre estes destacam-se o de “Continuidade Judaica”, uma fundação nacional dedicada à educação judaica e a programas de extensão; e o de “Desenvolvimento Comunitário”, um projeto nacional para aprimorar a vida judaica em comunidade. O Rabino Chefe iniciou sua segunda década no cargo com um chamado à “Responsabilidade Judaica” e um renovado comprometimento com a dimensão ética do judaísmo. O Dr. Jonathan Sacks foi laureado com o Prêmio Jerusalém de 1995 por sua contribuição à vida judaica na Diáspora e foi nomeado Cavaleiro por Sua Majestade a Rainha Elizabeth II, em 2005. Elevado a Par do Reino, recebeu assento na Casa dos Lordes, em 27 de outubro de 2009, como membro apartidário, sob o título de Barão Sacks de Aldgate na Cidade de Londres.

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